sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A boneca

Carmen tinha oito anos quando ganhou sua primeira boneca. De família pobre, aquele tinha sido seu presente mais valioso durante toda sua infância. Havia algo de surpreendente nisso, uma vez que seus pais mal tinham dinheiro para colocar comida na mesa.


A infância no campo tinha sido difícil. Carmem só começou a trabalhar aos 18 anos como supervisora de vendas de uma loja de calçados no centro da cidade de onde morava. O pai, ciente de que não haveria futuro para a filha na roça onde moravam, direcionou todos seus esforços nos estudos da garota, de forma que esta pudesse ter uma vida melhor do que a dele e de sua mulher.

Carmen ainda morava na pequena casa onde crescera. O trajeto até o trabalho era feito em sua motocicleta de 100 cilindradas. Sábado e domingo tinham os plantões de venda, de forma que Carmen folgava apenas uma vez por semana.


Seu pai, hoje com 59 anos trabalhava menos na lavoura. As condições de vida da família melhoraram modestamente graças ao emprego da filha a recente aposentadoria de seu João.

A jovem ainda tinha a primeira boneca que ganhara do pai anos atrás. Lucia, como era chamada, agora estava guardada em uma caixa de vidro adornada por fitas de cetim na estante do centro da sala. Amarelada pelo tempo, a boneca ostentava a beleza dos tempos de nova, sinal de todo o valor e zelo que Carmen tivera ao longo dos anos.

Desde que começara a trabalhar, Carmen não deixou sua paixão de lado. Talvez a dificuldade do pai em lhe conseguir aquele presente tornou o gosto por bonecas tão especial. Agora, Lucia era apenas a ponta do iceberg da coleção de mais de 150 bonecas que enfeitava a estante da sala e mais dava a impressão de uma loja de brinquedos que qualquer outra coisa.


Foi na noite de Natal que algo aconteceu. A loja de sapatos da cidade estava aberta e com todos os vendedores trabalhando. Em pleno dia 25 de dezembro o gerente fizera os pobres coitados trabalhar em horário reduzido. Não era para menos: aquela era a única loja de sapatos da cidade, e o dono dela não queria perder um centavo sequer.

A loja estava obviamente vazia.
Carmen conversava com seus companheiros, animada por faltar 05 minutos para três horas da tarde. Momento em que finalmente poderiam baixar as portas e ir para casa.

O dia estava abafado, e uma densa neblina pairava sobre as ruas do bairro. Mal se podia enxergar qualquer coisa. O horário de fechar finalmente chegou e os vendedores apressados se despediram e saíram apressados em direção a suas casas. Carmen ficou na loja para fazer o fechamento do caixa e ligar os alarmes. A porta do estabelecimento ainda estava aberta quando uma silhueta curva e pequena surgiu em meio à névoa.


Uma senhora de aparência humilde entrou na loja devagar. Parecia ter certa dificuldade em caminhar. Havia uma cicatriz em seu pescoço, suas mãos velhas seguravam uma bolsa negra e surrada. Seu casaco, não menos surrado que a bolsa, estava cheio de rasgos e a touca que usava sobre a cabeça estava encardida.


Não restavam dúvidas que ela era moradora de rua.

-Posso ajudar? - Carmen dirigiu o olhar delicadamente para aquela senhora.

-Desculpe incomodar. Está tudo fechado lá fora. A senhorita tem um copo de água?

Certamente aquela senhora não compraria nada da loja. Sua aparente condição dizia a Carmen que ela não tinha dinheiro, e o pedido da mulher parecia confirmar sua intuição.


-Claro - disse Carmen -. Espere aqui um momento que já vou buscar.

Sem demonstrar pressa, Carmen saiu e rapidamente retornou com um copo de água.

-Aqui está.

-Obrigado!

A senhora, que estava sentada em um banco de prova de calçados tomou a água e levantou-se com dificuldade. Caminhou em direção à saída da loja a passos lentos. Carmen, cordial acompanhou a idosa até a porta e antes que esta pudesse recusar, ofereceu um par de sapatos baratos a idosa.

-A Senhora deve calçar 36?

-Isso mesmo, minha filha.

-Então, um feliz Natal para a senhora. Tome, um presente meu.

A velha contemplou feliz os sapatos que ganhara e colocou a caixa debaixo dos braços. Carmen viu a senhora se afastar, falando sozinha, aparentemente com uma criança, pelo tom de sua voz.


Lamentando em seu interior a situação daquela senhora, Carmen ligou o alarme e apagou as luzes da loja. Trancou a porta e subiu em sua moto, quando percebeu os passos rápidos e desajeitados da senhora virem em sua direção.

- Espere querida! - Dizia a velha ofegante-. Quero dar algo a você também!

Embaraçada, Carmen contemplou a pobre mulher.

- Minha filha. Ela ficou muitos anos comigo. Eu não tenho ninguém a não ser ela. Mas ela disse que quer ir com você.

Confusa, Carmen olhou ao redor. Não havia ninguém. Apenas elas estavam na rua.

- Mas...

- Sim - interrompeu a velha -. Você acha que estou louca, mas é realmente minha filha. Não tenho como retribuir o favor que me fez, então espero que aceite ela como presente. Tenho  ela desde que passei a morar na rua, mas estou velha, já idosa e não tenho com quem deixar minha companheira de anos. Aliás, eu não tinha. Sei que ela ficará melhor com você...

- Não posso aceitar senhora, a boneca é tudo que tem.

- É verdade - refletiu a velha -, mas sou tudo que ela tem também, e logo não estarei mais aqui. Não quero que minha filha vá parar em mãos estranhas. Você foi muito gentil comigo, e quero deixa-la com você.

Carmen assentiu, enquanto a velha abria a pequena bolsa.

- Essa boneca foi tudo que me restou. Minha vida não foi boa, mas espero que ela traga sorte a você. Você verá que essa boneca é única, e muito especial. Costumo chama-la de Linda. Tome. É sua agora.

- Obrigada, senhora...

- Marta. Me chamo Marta, e só tenho que agradecer a você.

Antes que Carmem se anunciasse, a velha virou e caminhou até sumir em meio à massa cinzenta da neblina. Carmen estava sozinha novamente quando guardou a boneca na bolsa e ligou sua moto, rumando para casa.

Parte II

O Natal transcorreu tranquilo e sem novidades. A família dos pais de Carmen ceou na casa do vizinho, na companhia de amigos e parentes mais próximos. A mesa estava farta e havia muita bebida. Carmen conversava animadamente com sua mãe e suas tias enquanto o pai cuidava da churrasqueira, entretido entre a carne e seu copo de cerveja. Os fogos estouraram a meia noite, e após uma ou duas horas as pessoas tomaram seus caminhos de volta.
A noite estava clara. O céu estrelado brilhava palidamente sob o luar. O som da água do rio passava tranquilo e discreto a metros da casa de Carmen. A noite recompensou a todos pelo dia tão feio que a antecedera.

A loja não abriria no dia seguinte. Não ao menos para Carmen, já que era sua folga. Se seu Sabino a promovesse como havia prometido, breve ele teria folga 04 vezes por mês ao invés de uma. Mas havia o sonho de sair da loja e arrumar um emprego melhor. Talvez ela não esperasse por uma promoção se arrumasse coisa melhor.

Passou pela sala e contemplou sua estante cheia de bonecas. Agora ela havia ganhado outra. Mais uma para sua crescente coleção. Essa, no entanto, era diferente das outras. Parecia... Nova.

Carmen sentou-se no sofá e observou com atenção. A boneca parecia saída de uma loja de brinquedos. Seu estado, sua conservação... Eram perfeitos. Aquilo não fora presente de uma moradora de rua? Como uma pessoa que vive ao ar livre poderia cuidar tão bem de algo a ponto de parecer novo?

Até mesmo a mais antiga boneca de Carmen estava amarelada pelo tempo. Se aquela senhora tivesse a boneca há tanto tempo assim certamente ela estaria em iguais condições. Estava pensando nisso quando seu pai entrou sala adentro.

- Filha, você trabalhou hoje. Não acha melhor ir dormir?

- Já vou, pai.

- E isso em suas mãos? Outra boneca?

- Ganhei de uma senhora da rua. Parece nova.

João sentou-se ao lado da filha e examinou a boneca. Seu rosto carregou uma expressão preocupada que logo tentou disfarçar. O rosto daquela boneca lhe era familiar, mas ele não se lembrava de quem...

- Esta deve ser bem antiga...

Carmen conhecia bem o tema e concordou com o pai. Aquela boneca devia ter pelo menos uns 20 anos, e ainda assim parecia nova.

- Sabe o que é isso, filha? Material de qualidade. Antigamente as coisas eram boas. Acho que pra essa você deveria dar um tratamento especial.

João levantou-se entregando o brinquedo nas mãos da filha novamente.

- Vou me deitar. Amanhã temos mais carne para comer!

Deu uma risada, girou nos calcanhares e deixou a filha a sós com a boneca.

Uma vez sozinha Carmen contemplou com admiração a boneca Linda. Era um tanto bonita e resolveu leva-la para o quarto. Assim teria tempo de admira-la mais um pouco antes de dormir.

Com a boneca nos braços, apagou a luz da sala e seguiu até o quarto onde sua cama arrumada a esperava.

Com sono, deitou-se sem trocar a roupa e adormeceu.

Acordou assustada 04h da manhã. A janela de seu quarto estava aberta e dava uma vista para o silencioso pasto iluminado sob o luar.

O gado jazia horrivelmente amontoado no canto da cerca. As vacas estavam com a cabeça cortada e os chifres fincados no solo, numa estranha e macabra espécie de ritual.

A vista era aterradora. Carmen levantou-se trêmula e fechou a janela pouco antes de um vulto negro correr do pasto até ela. Suando frio, fechou o trinco quando o ser, ou qualquer coisa do que pudesse ser chamado começou a chocar-se contra a madeira que separava seu quarto do lado de fora da casa.

Apavorada, instintivamente pegou a boneca e correu até o quarto dos pais. Sobre a cama, o vulto agora bem visível e arqueado contemplava o casal adormecido. Os olhos vermelhos, a face amarelada e o cheiro podre expunham a imagem de um demônio. Não poderia ser outra coisa.

O ser olhou para ela e fez sinal de silêncio. A última coisa que Carmen viu foram seus pais levitando e sendo arremessados violentamente contra a parede, quando um som característico e familiar a tirou dali.

O despertador tocava ruidosamente as seis em ponto quando ela acordou. Estava suada, mas aliviada por estar em sua cama. O galo cantava acompanhando os primeiros raios de sol e o gado pastava tranquilo, aproveitando a grama fresca da aurora.

Carmen tomou um banho focando seu pensamento nas tarefas de casa que faria em seu dia de folga. Planejava tomar um banho no riacho durante a tarde, e talvez levasse a boneca nova junto com ela. O verão no interior era mais quente que na cidade, o que levava os moradores daquele distrito a frequentar o riacho nos dias de calor.

A casa estava silenciosa. Os pais talvez estivessem ainda dormindo por causa da noite passada e Carmen preferiu não acorda-los. Apenas por precaução abriu a porta do quarto deles. A mãe dormia um sono tranquilo, enquanto o pai não estava ao seu lado. A julgar pelo horário, talvez estivesse tirando leite no pasto. Era comum seu João levantar antes da esposa, até mesmo depois de dias cansativos.
Na cozinha, a fumaça adocicada do café emanava do bule, e Carmen tomou um gole. A bebida desceu quente e revigorante, mas havia uma quantidade exagerada de açúcar.  Seu pai não costumava exagerar assim. Já fazia um bom tempo que seu João não errava no café.

Saindo da cozinha e indo para a sala, Carmen encontrou seu pai sentado no sofá, os olhos ainda sonolentos contemplavam uma boneca que este segurava em suas mãos, sem desviar o olhar. A boneca era grande, de porcelana. Tinha um vestido preto e olhos pintados de azul. Não era uma das mais bonitas que a filha tinha, mas chamava a atenção de qualquer um.

-Desde quando o senhor pegou afeição por minhas bonecas pai?

Seu João, sem desviar o olhar de suas mãos não respondeu.

-Pai?

João não piscou. Seus olhos estavam vermelhos e lacrimosos. Seu rosto pálido tinha um tom branco, como o rosto da boneca que segurava. Ele por fim soltou o brinquedo que tinha nas mãos e encarou a filha.

- Carmen, quantas vezes na vida eu lhe disse pra não aceitar coisas de estranhos? Quantas vezes eu lhe disse?

Carmen se assustou como tom do pai, enquanto este ainda gesticulava.

- Eu te criei com tudo o que tinha! Tirei de mim pra dar educação pra você! Pra você não ter o mesmo caminho que eu... Filha, eu fui amaldiçoado e consegui. Consegui ter uma vida. Consegui a lágrimas, a suor e sangue de minhas mãos! Eu consegui educar você. Mas ela me disse que um dia ia voltar. Ela disse que ia voltar pra me matar. Disse que seria só você e ela...

- Mas, pai... - Carmen parecia não compreender. Seu pai, absorto a reação da filha continuou:

- Ela não é sua mãe. Não de sangue. Ela não deu a luz a você.

Carmen se sentiu enjoada e sentou-se. Sua cabeça começou a girar e seu estômago a doer. Contemplou o pai, que ainda sentado continuava a falar com lágrimas nos olhos. Não lágrimas de raiva, mas lágrimas de dor. De arrependimento. Como se há muito tempo ele carregasse isso consigo e agora a hora de acertar as contas tinha chegado.

- Eu matei sua mãe. Matei-a quando você era recém-nascida. Matei-a para ficar com ela. Com Maria.

Carmen tentou falar, mas sua garganta começou a arder. Sentiu sangue escorrer de dentro de seu esôfago em direção ao estômago. O café. Tinha algo no café que ela tomara minutos antes.

-Foi há muito tempo. A última vez em que vi sua avó. A vez em que a vi com um embrulho nas mãos. Seu primeiro presente. Sua primeira boneca! Eu mexi com a pessoa errada. Sua avó me amaldiçoou, e desde então passei a levar esta vida miserável. Mas não a você. Você não. Quando ela soube do que eu fiz, não teve tempo para reagir. Empurrei-a contra a parede e cortei sua garganta. Fugi sem olhar para trás. Deixei-a caída na cozinha de sua casa, enquanto sua Linda jazia no quarto. Nunca descobriram.
-Acharam que sua mãe tinha se matado. Mas sua avó. Sua avó tinha sumido. Sumiram com ela, só pode ter sido isso. Foi o que eu pensei a vida inteira. Mas a desgraçada me amaldiçoou. Disse que não morreria enquanto eu vivesse. Disse que apenas iria descansar quando voltasse pra você.

-Quantas... Quantas vezes eu disse pra você não aceitar coisas de estranhos?

Carmen compreendeu. Aquela velha da loja, aquela mendiga com a cicatriz. Ela era sua avó.


-Essa boneca! Essa boneca que ela te deu. Ela me fez matar Maria, ela me fez... Mas não vou deixar sua mãe ficar com você. Ela andou até meu quarto. Sua cabeça dava voltas enquanto eu podia ouvir dela a risada demoníaca emanando de seus lábios de plástico. Era a voz de Linda...
-Sua avó era uma bruxa. Sua avó nunca morre. Sua avó portou a morte, e na desgraça de ver sua filha morrer, ela simplesmente me amaldiçoou. Essa boneca que ela te deu. Ela é sua mãe!

Carmen estava tonta demais para falar qualquer coisa. Seus ouvidos começaram a sangrar junto com o nariz, e sua respiração foi se dificultando.

-Você Carmen, minha filha, me perdoe... - João puxou uma arma da calça e disparou. O corpo sem vida foi ao chão, rodeado de sangue e miolos. Carmen viu quando uma sombra negra puxou o corpo para baixo da terra e se desesperou.

Antes que seus olhos se fechassem e se entregassem a morte, a inocente boneca que ganhara uniu-se a ela. Suas mãos de plástico tocaram seu rosto, e em meio ao sangue e dor lancinantes, Carmen ouviu antes de partir:

-Enfim juntas, minha filha.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Vítimas de um amor possessivo

Era uma noite chuvosa de junho, e eu estava voltando do trabalho. Fiquei trabalhando até mais tarde neste dia e como moro longe e estava cansado, resolvi comer algo no café próximo ao escritório.
Entrei pela porta, todo encharcado e tirei o meu casaco. Uma moça com o uniforme do café veio em minha direção com um enorme sorriso no rosto. Era a nova atendente. Ela era tão linda que por uns instantes fiquei ali, parado, olhando pra ela, enquanto ela me perguntava qual seria o meu pedido.
Dirigi-me até a mesa do canto, próxima a janela e me sentei. Ela então, com aqueles lindos olhos verdes e cabelos da cor do ouro me perguntou mais uma vez qual seria o meu pedido.
-O de sempre, por favor. – respondi a ela.
- Desculpe senhor, mas sou nova aqui, poderia por favor me dizer o que deseja? – disse ela docemente.
- Ah, claro. Desculpe. Estou tão acostumado a vir aqui que não me toquei desse detalhe.
Ela sorriu, e eu fiquei mais fascinado ainda pela sua beleza. Pedi um café amargo e um folhado de queijo, ela anotou e foi até a cozinha para busca-los. Trouxe o meu pedido, e dirigiu-se até o balcão. Enquanto ela limpava e organizava o balcão, eu fiquei ali, observando seus gestos delicados.
Pedi a conta e fui embora sem me despedir dela. Mas fiquei com aquela moça na cabeça. Não sabia seu nome e nada sobre sua vida, mas não podia evitar, estava fascinado com tanta beleza.
Os dias foram passando e com o tempo eu fui conseguindo me aproximar dela. Já sabia seu nome, era Juliana. Foi então que resolvi chama-la pra sair.
Ela aceitou e combinamos de jantar no sábado. Eu estava ansioso, afinal, não me interessava por uma mulher há uns 3 anos, desde que perdi minha esposa num acidente de carro. Eu vivia sozinho e passava o tempo todo trabalhando, não havia sequer imaginado ter uma namorada novamente. Mas ela despertava em mim um sentimento tão bom, que me fazia sentir vivo de novo.
O sábado chegou, e junto com ele uma mistura de ansiedade, medo e alegria. Sim, alegria. Pela primeira vez em tanto tempo eu me senti alegre, e o motivo tinha nome, Juliana.
Jantamos num restaurante muito bom que havia na cidade, conversamos sobre vários assuntos e trocamos telefones. Agora sim eu sabia algo sobre a vida da minha amada. Ela havia chegado a pouco tempo na cidade e vivia sozinha em um apartamento.
Não conhecia ninguém além de mim. Contei a ela sobre a minha vida, meu trabalho e tudo mais. Acompanhei ela até seu apartamento e ela me deu um beijo de boa noite. Foi o que bastou pra que tivesse certeza, eu estava realmente apaixonado.
Mas ainda não sabia se ela tinha o mesmo sentimento por mim. Pensei rápido, e achei melhor continuar conversando com ela por mais uns dias, até ter certeza se era correspondido.Depois deste encontro saímos por várias vezes. Era sempre um melhor que o outro. Ela era divertida e ria das minhas piadas idiotas.
Nós combinávamos em tudo. Foi então que decidi pedi-la em namoro, e para minha felicidade ela aceitou. O tempo passou e eu estava cada vez mais apaixonado, e ela também retribuía esse sentimento.
Quando um dia ela me ligou chorando e muito nervosa, pois havia sido demitida. Tentei acalma-la mas sem sucesso. Pensei que essa era a hora certa de convidá-la pra morar comigo, afinal, já estávamos juntos há 7 meses, e como ela pagava aluguel, não tinha pra onde ir. Ela aceitou, e na manhã seguinte já estava no meu apartamento. Parecia um sonho. Eu tinha uma mulher linda, atraente e perfeita.
Até que Juliana começou a mostrar um lado seu que eu não conhecia. Um lado muito ciumento por sinal. Eu trabalhava em um escritório de contabilidade, e tinha várias mulheres lá. Ela tinha muito ciúmes e me ligava de meia em meia hora perguntando onde eu estava e com quem estava falando. Chegava em casa exausto e tinha que responder um interrogatório, era sempre a mesma coisa. Já não saíamos pra jantar, e ela já não ria das minhas piadas.
Vasculhava as minhas coisas, cheirava minhas roupas, sempre procurando um sinal de mulher. Mas nunca encontrava, pois apesar de estar me cansando dela, ainda restava respeito, e jamais a trairia.
Um dia, meu amigo Sérgio que trabalhava como escrivão numa delegacia me ligou muito nervoso pedindo que eu fosse ao seu encontro. Insisti em saber de que assunto se tratava mas ele disse apenas que era algo muito importante e tinha que dizer pessoalmente. Fui até o bar próximo à delegacia e lá estava ele a minha espera. De longe notei que Sérgio estava muito aflito pois não parava de estalar os dedos. O cumprimentei e sentei-me junto a ele.
- Cláudio, eu preciso te mostrar uma coisa - disse ele.
-Pois mostre de uma vez. Já está começando a me assustar com tanto suspense - ele pegou uma pasta preta na sua bolsa e começou a folheá-la. Tinha várias fotos de homens e mulheres procurados pela polícia. Ele virou a pasta e me mostrou uma foto em especial.
-Reconhece esta moça?- disse Sérgio.
-Não pode ser! É a Juliana! – exclamei muito surpreso. Na foto ela estava mais jovem e com os cabelos escuros, mas não tinha duvidas, era ela.
-Eu vim te mostrar porque não tinha certeza de que era a Juliana - disse Sérgio.
Eu não podia acreditar. A minha Juliana era foragida da polícia. Sérgio então me mostrou a ficha dela. Tinha várias passagens por agressão, duas tentativas de homicídio e a pior delas, era procurada por ter matado o marido.
Eu fiquei chocado. Não consegui acreditar no que estava lendo. Perguntei a Sérgio como ela havia matado seu marido, então ele me contou.
Ele havia prestado queixas contra ela por agressão e um dia, quando chegou do trabalho ela estava o esperando com o jantar pronto. Ele jantou sem dar uma palavra sequer com ela. E alguns minutos depois começou a passar mal e desmaiou. Juliana o levou até o porta-malas do carro, dirigiu até uma estrada de chão e chegando em uma casa abandonada o retirou do carro.
Ele estava amarrado e amordaçado. Ela o arrastou pra dentro da cabana e o deitou no chão. Tirou as roupas dele e as deixou dobradas num canto. E com uma faca grande e afiada fez várias marcas em seu corpo.
Por último, cravou a faca em seu peito e ficou ali, vendo ele agonizar até a morte. Abandonou o corpo do pobre coitado e voltou pra casa, juntou seus pertences e simplesmente fugiu. A polícia consegui chegar até o corpo por depoimentos de vizinho que à viram naquele dia saindo de casa apressada em direção à estrada.
Desde então, ela é considerada uma fugitiva.Não consegui acreditar no que tinha acabado de ouvir. Como ela pode ter coragem de fazer uma coisa dessas? Me despedi do meu amigo e voltei para o escritório. Fiquei pensando em tudo aquilo e juntando as peças deste quebra cabeças. Isso explicava muita coisa. Ela nunca me disse nada sobre sua família e evitava falar de seu passado.
Essa era a razão de tanto mistério. Mais tarde, quando cheguei em casa, ela já estava me esperando. Como de costume vasculhou minhas coisas em meio a gritos histéricos de ciúmes. Fiquei calado o tempo todo. Não tive reação alguma e ela percebeu que algo havia acontecido. No dia seguinte liguei para o Sérgio e pedi a ele que esperasse alguns dias para entrega-la à polícia. Ele concordou e pediu que eu tivesse cuidado.
Passado uma semana resolvi chama-la pra conversar. Pedi a separação pois já não aguentava mais conviver com as discussões, e agora estava com medo do que ela podia fazer contra mim. Juliana chorou copiosamente e me pediu de joelhos para não deixa-la, mas eu estava decidido. Ela então me fez um último pedido, que ficasse com ela por mais alguns dias e que vivêssemos esses últimos dias como se nada tivesse acontecido.
Ela me olhava de um jeito que me deixava assustado. Suas pupilas estavam dilatadas e seus lábios brancos. Juliana me pegou pelo braço e insistiu mais uma vez. Ela segurava com muita força e cravava suas unhas compridas na minha pele. Fiquei apavorado e com medo. Achei melhor não contraria-la, mas disse que seriam apenas quatro dias e ela concordou. Como num passe de mágica seus olhos voltaram ao normal e seus lábios ganharam cor.
Ela me abraçou, me deu um beijo e agradeceu. Fomos para o quarto e nos deitamos na cama, ela me abraçou novamente e dormiu nos meus braços. Eu fiquei olhando pra ela ali, dormindo como um anjo, e me lembrando do dia em que a conheci. Do quanto ela era doce e como eu a amei.
No dia seguinte liguei para o Sérgio novamente e contei ter pedido a separação mas que havia prometido passar esses quatro dias com ela. Ele disse que eu era louco, que devia sair de perto dela o mais rápido possível pois de uma psicopata pode se esperar qualquer coisa. Eu concordei e então pedi a ele que fosse até meu apartamento buscar minhas coisas durante a tarde.
Ele foi, mas não voltou. Esperei Sérgio em frente a sua casa como havia combinado, mas nada dele chegar. Comecei a ficar preocupado e resolvi ir até meu apartamento. Chegando lá, Juliana abriu a porta para que eu entrasse. Ela estava com um vestido preto muito sexy, os cabelos soltos, batom vermelho e super perfumada. Me pediu que entrasse que o jantar estava pronto. Entrei, e me sentei junto a mesa. Ela me ofereceu vinho e eu aceitei.
Foi aí que eu lembrei que no dia em que Juliana matou seu marido ela serviu o jantar pra ele e que minutos depois ele passou mal e desmaiou. Achei melhor não comer, nem beber nada, mas ela insistia. Perguntei a ela se o Sérgio havia estado ali mais cedo e ela disse que não. Achei estranho pois ele ficou de ir lá e havia sumido. Ninguém tinha o visto e seu celular estava desligado.
Enquanto isso, Juliana tentava me seduzir de todas as maneiras, mas eu tinha que ser forte. Tinha que sair dali logo, pois estava com um mal pressentimento. Me levantei da mesa e me dirigi até o banheiro do quarto. Fiquei lá por alguns minutos pensando em uma maneira de sair dali sem que ela se zangasse. Enquanto estava pensando, algo me chamou atenção no ralo do banheiro. Eram gotas de sangue. Sai do banheiro e fiquei um tempo no quarto.
Enquanto isso, Juliana estava quieta na sala de jantar. Não ouvi nem um barulho dela e comecei a me preocupar. O que será que ela estava fazendo? Sentei na cama e olhei para o chão, mais uma pequena gota de sangue me chamou a atenção. Desta vez era em direção ao closet. Abri a porta e para minha surpresa lá estava o corpo de Sérgio, todo ensanguentado e com vários cortes. Virei em direção da porta do quarto e pensei em correr mas já era tarde, Juliana já estava a minha espera com uma enorme faca na mão.
Ela veio pra cima de mim e eu consegui correr para sala, mas ela era rápida, num piscar de olhos já estava atrás de mim. Sai correndo em direção a porta mas estava trancada. Juliana se aproximou novamente e dessa vez veio com uma tamanha força que não consegui segura-la. Levei uma facada no ombro e na hora quase cai de tanta dor.
Me segurei no sofá para não cair enquanto ela se preparava para dar uma facada certeira, tirei forças não sei de onde e consegui me recompor, pra minha sorte estava ferido no braço esquerdo e assim que ela chegou bem perto dei um soco na boca dela com a mão direita. Ela ficou meio zonza, caiu no chão e largou da faca. Então, num ato de desespero peguei a faca e olhei bem para os olhos de Juliana, ela me olhou com uma carinha de piedade e por um momento até pensei em não fazer nada, mas não tinha jeito, era ela ou eu.
Cravei a faca em seu peito e vi minha amada Juliana morrendo bem ali, na minha frente. Me senti mal por ter feito isso, mas eu não tive escolha, se eu não a matasse ela me mataria e hoje estaria solta por aí fazendo mais vítimas. Larguei a faca no chão e imediatamente liguei para a polícia e me entreguei. Afinal, eu havia cometido um crime e tinha que pagar por isso.
Sai de lá algemado e fui levado direto para a delegacia, o delegado ouviu meu depoimento e mandou que me levassem para uma cela. Aguardei o julgamento e fui condenado, passei anos da minha vida preso, mas hoje estou livre novamente.
Hoje em dia tento levar uma vida normal e esquecer o que vivi, mas sempre acabo me lembrando da Juliana. Ah, minha doce Juliana. Queria muito que nossa história não tivesse acabado assim, mas infelizmente esse foi o nosso fim. Apenas mais duas vítimas de um amor possessivo.

Maiores mistérios da humanidade

A DAMA MARROM

Por volta de 1700, Charles Townshend vivia em Norfolk, Inglaterra, junto de sua esposa, Lady Dorothy Townshend. Reza a lenda, que um pouco antes do casamento, Dorothy teria traído seu futuro marido com Lord Wharton.
Charles, que não era bobo, descobriu que sua futura esposa havia lhe passado para trás, mas mesmo assim casou-se com ela. Porém o casamento não ocorreu por ele ter perdoado Dorothy, mas sim porque Charles queria se vingar dela. Desse modo viveram durante alguns anos juntos, até que em 1726, Lady Townshend morreu suspostamente de varíola, contudo a lenda diz que o enterro foi apenas uma armação e a mulher na verdade estava viva e trancafiada em um cômodo afastado da mansão. Dizem que após o falso funeral, Dorothy ficou presa naquele quarto aonde todos os dias seu marido vinha lhe espancar por causa de sua traição.
Durante muitos anos ela viveu naquele lugar, sofrendo com as dores e com a fome. Além de ter que conviver com a saudade de seu filho, que fora tirado dela por seu cruel marido.
A data da verdadeira morte de Lady Dorothy Townshend não está registrada em lugar algum, porém em setembro de 1936 a mais famosa foto de fantasma da história foi tirada e a esposa mal tratada ressurgiu na história:
Uma foto, tirada por Captain Provand e Indre Shira, é uma das mais intrigantes imagens de fantasmas, pois diversos estudos jamais encontraram uma falha ou algo que a desacreditasse, tornando essa foto a imagem de assombração mais verossímil de todos os tempos.
A casa onde a foto foi tirada ainda existe e conta-se que é possível ver a "Dama Marrom" vagando por lá de vez enquanto, procurando por seu filho.

A mulher do vestido negro



Há um tempo atrás, numa noite fria e escura alguém foi brutalmente assassinado próximo a lojinha de doces. Estava um pouco escuro e havia poucas pessoas na cena, mas mesmo havendo pouca gente no local, todos afirmaram que o assassino parecia comigo.

Imediatamente fui levado a corte.

O juiz me questionou:

-O que você tem pra me dizer? Se estavas em outro lugar você não precisa morrer.

Eu fiquei calado, mesmo sabendo que este silêncio fosse minha sentença de morte, não queria falar que estava nos braços da mulher do meu melhor amigo.

Agora nos meus sonhos, vejo uma mulher com um vestido negro, ela visita um túmulo que tem meu nome na lápide e perambula em colinas altas e escuras. Ninguém vê, ninguém sabe, além de mim.

A forca é tão alta e a eternidade esta tão próxima... Eu vejo esta mulher na multidão, imutável, não derrama uma lágrima. Mas agora, quando o vento do norte sopra frio a noite, a vejo com seu longo vestido negro a chorar sobre meus ossos.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A relação de jake

Quem nunca disse ou ouviu a frase: “Tenho ciúmes, mas guardo para mim” que atire a primeira pedra, em algum momento do relacionamento podemos não apenas dizer como passar por isso, pelo que pode ser chamado de “ciúmes invisível”, e junto com ele vem às deduções e a desconfiança, que muitas vezes podem ser sem fundamentos e é ai que está o problema.
Casal infeliz
Eles parecem felizes… mas tem coisa errada ai.
No começo do namoro tudo são “flores” afinal é o momento onde em sua maioria um tenta passar para o outro uma imagem da melhor pessoa possível, onde ambos estão se cativando para convencer ao outro a investir no relacionamento, e você não conhece muito ainda sobre a pessoa que está se relacionando e por isso pode não saber algumas coisas sobre ela.
Então situações que podem de alguma forma te causar ciúmes podem acontecer, como por exemplo, jake sempre conversa com sua namorada por um famoso aplicativo chamado WhatsApp, e ele sempre se pergunta '' será que ela está falando com mais alguém além de mim ? '' e jake nunca sabe quem a namorada tem nos seus contatos, com quem conversa, se fala a verdade quando diz que está conversando apenas com ele, e que nunca conversa com outros rapazes, a não ser amigas . Jake também cria imagens na sua cabeça, imaginando que sua namorada possa estar conversando com algum caso antigo, alguém que já deu em cima dela no passado, ou até mesmo ex namorados, porque sim, querendo ou não, é só você começar a namorar, que aparece os malditos ex namorados, e ele nunca sabe como a namorada se sai nas conversas, se é do tipo que sai dando fora do tipo '' Tenho namorado, pare já'' ou se é do tipo '' Obrigado pelo elogio amor ''. Sentir ciúmes é natural, isso sempre acontece quando sentimos que a relação está de alguma forma sendo ameaçada seja por motivos reais ou não, e o problema pode ser maior ainda, quando o “ciúme invisível” entra em cena, ele pode acontecer quando vê uma cena ou situação que de alguma forma te causou ciúmes e você guarda para você e não resolve isso, se por acaso você sentir isso novamente em outra ocasião, provavelmente você vai juntar com o que sentiu anteriormente e isso vai criando uma bola de neve, e muitas vezes você pode começar a fazer certas deduções infundadas e isso vai gerando uma serie de fantasias e essas fantasias vão se acumulando, até que toda uma trama de desentendimento se forma; e com isso pode até vir uma crise no relacionamento por coisas que na verdade podem nunca ter acontecido, a não ser na nossa cabeça.
Ao longo do relacionamento situações como essas podem acontecer várias vezes, afinal ninguém está imune ao ciúme.
Uma forma simples de se resolver quando situações de ciúmes acontecem é utilizar o dialogo, pois cada vez que um possível problema é resolvido, o relacionamento se torna mais agradável e mais estável. E você só poderá ter um relacionamento assim se tiver disposta a resolver os problemas e superar as chamadas crises quando elas surgem e não deixar para depois ou guardar só para você. Mas, para isso, repito, é fundamental manter a cumplicidade e o diálogo no relacionamento.
Você não consegue evoluir sua relação sem cumplicidade e confiança, não podemos fazer adivinhações sobre os fatos, mas sim procurar saber o que realmente está acontecendo por meio do diálogo.

Mundo Cruel

Vejo da janela um horror,
Vejo um homem cruel
Decepar a cabeça de um
Velho magro e alto.
Vejo o medo na alma de
Uma criança atormentada
Pelo abandono dos pais,
Vejo um aborto e um lábio
Com sabor de fel.
Vejo a falta da esperança
Em alguns corações desiludido.
Vejo o prevalecer de um malvado!
Vejo gente sangrando, homens
Caídos na lama. Da minha janela,
Vejo gente morrendo pelas mãos dos
Malvados, sanguinários!
E eu nada posso fazer, eu
Não tenho como entrar em seus
Corações e mudar seus destinos.
Eu não tenho como fechar a minha
Janela, se não, eu Tropeço e caio!
Só me resta interceder dos céus
Misericórdia. E por enquanto;
Olhar e rogar por dias melhores,
Por uma consciência justa de quem
Tem o poder de mudar este mundo
Cruel.

Luzia

Vamos lá,  para deixar a raiva e a tristeza de lado, vim escrever mais um conto a vocês.


** Luzia despertou escutando o forte burburinho.
Uma tragédia ocorrera.
Pedro foi encontrado morto com uma faca cravada na testa.
Luzia começou a provar um pesadelo do qual jamais logrou escapar.
Informaram que Carlos havia desaparecido.

No dia anterior, Luzia e Carlos tiveram uma conversa bem triste, porém recheada de promessas lindas. Apesar da separação arbitrária, havia a esperança do amor o qual jamais seria anulado.
Carlos decidiu viajar após Luzia confirmar o noivado com Pedro, uma imposição que o pai da jovem definira.
Luzia amava Carlos, jovem solitário, órfão desde a infância, que vivia fazendo bicos e, nas horas vagas, brincava com a poesia.
_ Um dia vou escrever um livro dedicado a você, Luzia!
_ Será que eu mereço tanto, Carlos?
_ Sim! Você merece, você é a vida dos meus versos.
Luzia tentou algumas vezes convencer o pai, no entanto o radicalismo do genitor era gigantesco demais. Ela foi obrigada a aceitar a união conveniente com o filho de outro coronel famoso da cidade.

Agora o crime parecia criar uma barreira inviolável entre Carlos e Luzia.
O pobre poeta, que nunca expressou ser capaz de uma ação violenta, passou a ser caçado pelos dois coronéis.
Além disso, Luzia não admitia viver ao lado de um cruel e frio assassino.
A moça não aceitou a proposta de se tornar uma noviça, entretanto passou a morar no convento da cidade.
Ela optou por viver isolada, imaginando deixar a poeira do tempo apagar a ocorrência, o sentimento que nutria na alma e assim lavar toda a história de sua jornada infeliz.

Trinta anos depois, Luzia era uma das principais colaboradoras da Casa do Amor, um projeto idealizado pelo atual padre da cidade, Fernando.
O dedicado sacerdote surgiu na cidade quando Luzia, coincidentemente, voltou a morar na casa dos pais.
A carismática Luzia adorava auxiliar a atividade de doação e virou o braço direito do padre.

Levando algumas crianças ao dentista, Luzia quis visitar a livraria.
Ela sentiu uma forte emoção quando leu “A Vida dos Meus Versos”.
O título não permitia dúvidas. O autor usava um pseudônimo, no entanto certamente era ele. Quem escreveu o livro, cheio de versos cantando um amor profundo e contagiante, foi Carlos.
No prefácio havia um texto que confundiu Luzia.

“Conforme prometi a minha doce esposa, só publiquei esse livro depois de sua amarga partida. Gentil ela aceitou conviver comigo sabendo que sempre amei outra mulher.
Noutros braços decidiram pôr minha flor tão querida e amada, todavia ninguém jamais do meu coração diminuiu uma gotinha desse puro sentimento o qual parece um oceano.
Nas minhas poesias repito o quanto desejei fazê-la feliz e que eu a amo muito mais do que já amou algum apaixonado ontem, hoje e sempre.”

Noutros braços decidiram pôr minha flor tão querida e amada?
Luzia não entendeu a afirmação nem percebeu qualquer expressão de arrependimento.
Carlos falava como a grande vítima da qual furtaram o seu amor.
Luzia angustiada parou para ler o livro. As declarações de amor contidas nos poemas destacavam um gostar belo, sublime e inesgotável.
A senhora sentiu uma grande emoção, mas havia uma certa revolta e dor no seu coração.
Se Pedro não tivesse sido assassinado, talvez ela mudasse os planos traçados pelo pai ou o destino favorecesse a união com o poeta Carlos.
Luzia lastimava muito o desfecho brutal.

Sem esconder tamanha aflição, ela decidiu falar sobre o assunto com o amigo Fernando.
O sacerdote era um homem de poucas palavras, mas um ótimo ouvinte.
Ela precisava tirar o peso do peito e talvez obter um sábio conselho.
Luzia narrou o primeiro amor quando adentrava somente dezesseis primaveras, os encontros românticos com Carlos, Pedro insistindo, o pai severo obrigando a filha a aceitar o esposo indesejado, o último diálogo, a notícia do assassinado e a separação definitiva.
A senhora percebeu o padre, com as mãos tapando o rosto, chorando sem parar.
De repente Fernando deu um grito e falou:
_ Perdão, Luzia! Perdão!

Na noite do crime, Pedro estava passeando perto da praia conforme gostava de fazer.
Um movimento brusco fez surgir um homem segurando uma faca.
O bandido vestia uma roupa velha e apresentava uma grande barba.
_ Me dá todo seu dinheiro.
Pedro reagiu imaginando poder conter o marginal.
Os dois lutaram bastante até Fernando feri-lo com um golpe fatal.
Vendo a faca na testa de Pedro, Fernando desesperado saiu correndo sem levar nada.
Alcançando outra cidade, ele perambulou até conseguir um emprego e uma pensão, contando com a ajuda caridosa de uma família religiosa.
Um dia ele cismou que seria um padre.
Nove anos depois, já um sacerdote, resolveu compensar o pecado do passado retornando à cidade de Pedro e dedicando todos os seus dias diminuindo a infelicidade dos mais necessitados.
Nunca quis saber nem comentou uma vírgula sobre a sorte de Pedro.
O desabafo de Luzia, que colocava a nobre mulher no terrível enredo, trazia a lembrança da ocorrência como se fosse uma sombra diabólica e suscitava a insuportável dor do remorso destruidor.

Luzia não sabia o que dizer ao padre, que agora soluçava nos seus ombros, mas sentia um forte alívio no peito. Afinal de contas, Carlos sempre foi inocente.
Ela simplesmente falou:
_ Eu te perdôo, padre! Vai ficar tudo bem.

** Numa praça movimentada, Carlos, apertando as mãos de Luzia, escutou a seguinte indagação:
_ Será que ainda há tempo, querido Carlos?
_ Luzia! Ah, doce Luzia! Eu nunca esqueci esse seu sorriso nem o brilho dos seus olhos. Se eu não estiver sonhando, podemos tentar parar o tempo para que ele permita termos todo o tempo do mundo.
_ Eu demorei, pois não aceitava a idéia de me unir a um assassino. Como eu fui boba! Jamais um verdadeiro poeta mataria alguém.
_ Eu também errei, Luzia! Nunca mais quis saber notícias suas e você estava lá, pronta para me amar. Você permaneceu sendo a vida dos meus versos distantes, mas, se eu tivesse insistido, teria sido a vida dos meus inspirados versos presentes, possibilitando desfrutar o período desperdiçado.
_ Ninguém errou, querido! A gente precisava confirmar a intensidade e força do nosso amor através desses anos de separação.
_ E eu precisava ser declarado inocente, correto?
Os dois sorriram e se beijaram.

As carícias e os muitos beijos guardados pelo casal sugeriam aproveitar bastante os anos vindouros anunciando uma enorme felicidade sem questionamentos, distâncias ou deduções equivocadas.

Um abraço!