domingo, 2 de junho de 2013

As vozes em mim

Disse-me um Augusto
Que sempre fui Dos Anjos
Quisera eu o justo
Minhas dores e meus arranjos
Perguntou-me um Fernando
Por quê sou diferente como Pessoa
Pois, da alma que vai vagando
O Poeta surge da pureza que soa
Exclamou-me uma Florbela
Que a inspiração sempre me Espanca
Faz-se da minha vida a cela
Que prende-me a dor que arranca
Chorou-me um Jorge
Como eu, por não ter sido tão Amado
No sofrer da boemia com seu alforje
Com o coração do corpo separado
Gritou-me um Mario
Pela chegada da saudade de Quintana
Implorando pela vida o necessário
O ódio por quem no amor engana
Sussurrou-me um Manuel
Para vagar-me sem a Bandeira
De que valeste a liberdade do céu
A pátria sentada numa cadeira
Cantou-me uma Cora
Que dos olhos refletia Coralina
Dos segredos mortos se aflora
O coral da mágoa cristalina
Avisou-me um Euclides
Que precisaria de uma Cunha
Para o drama de quem revide
A luta poética de quem rascunha
Murmurou-me um Gonçalves
De que da noite também fazia os Dias
Sentiu-se os amores bivalves
De vagabundear pelas cercanias
Guardo a sete dores meus sonhos
São Poetas do silêncio dentro de mim
Ouvir-me por meio ao que componho
Os pêsames que me calas, a poesia sem fim.

Amar é ser inteiro, completo

Chega de romantismo mofado
Feito de conceitos vencidos
Já há muito ultrapassado
Que agrada aos deprimidos
Que não soa bem aos ouvidos
Exceto dos que amam o engano
Dos que por baixo do pano
Dizem que amam, que muito amam
Mas que mais que tudo,
Se enganam...
E querem viver enganados.

Eis que o Amor é uno, está posto
Amor nasce conosco, e sozinho
Nos transparece, ilumina o rosto
E se torna o fio condutor
De todo o nosso caminho

E sozinhos, equilibrados
Aprendemos que amar (ou ser amados)
É muito mais que mandar recado
Que enviar um powerpoint purpurinado
É amar antes de tudo, a si primeiro
A si em segundo, e a si terceiro
Amar de verdade é estar inteiro.

Eis que não admito ser tampa
Muito menos panela
Nem metade de laranja
Nem a metade de uma cara
Não quero ser vagabundo
Nem depositário da caridade
De um modelo de mundo
Que já se vai tarde...

Quero ter sim, a alegria rara
De ser companhia de viagem
De alguém com sensibilidade para
Comigo sentar e olhar a paisagem

Amar com plenitude é andar ereto
Pois o amor que trazemos guardado
Já deixou pra mim o precioso legado
De me reconhecer completo

o perfume

Eu passava horas assistindo pelo buraco da fechadura a mamãe e seu complexo ritual pós-banho: os cremes infinitos, os frascos coloridos e alongados, os malditos sprays de perfume. Ela era muito dedicada a isso: mulher vaidosa, não economizava nos batons e brilhos, os cabelos sedosos e castanhos que nunca mais encontrei em nenhuma outra, o corpo bonito que me deixava de pau duro sem que nem mesmo eu me desse conta do por que. Era um desperdício aquilo tudo, eu soube mais tarde, porque mamãe não se arrumava daquela maneira para papai, era sempre para outros homens, nunca ele, que era flácido e ausente o tempo inteiro, uma lesma que passava o pouco tempo em casa sentado diante da TV como se a vida se resumisse àquilo, um idiota cuja única virtude era o não estar de corpo presente.
Aí a origem da repulsa: os perfumes representavam o amor que minha mãe me negava. Também não era para mim que ela se perfumava, era para os outros, para os infinitos homens que ela mantinha em fila como cães obedientes e ofegantes, homens que invadiam minha casa a qualquer hora mesmo com a presença de papai, que apenas levantava os olhos bovinos e não falava nada, um corno molenga que fazia da poltrona o seu castelo.
Eu cresci, portanto, odiando perfumes e mamãe, moleza e papai. Se eu pudesse — e muitas vezes avaliei essa possibilidade — eliminaria da face da terra tudo isso pela ordem: perfumes mamãe moleza e papai. Mas não, a prudência me servia de âncora, um molenga também eu, puta merda!
Frustração. Eu me sentia amarrado, incapaz de estabelecer contato com o mundo e seus milhares de perfumes: as ruas eram um suplício, o mais leve sinal de uma mísera colônia me nauseava, a imagem da minha mãe, vaca perfumada; o meu pai, boi acomodado ruminando vaziez.
Por isso, já na idade de namorar, eu fugia das mulheres, e elas tinham razão quando me chamavam de frouxo: era o exemplo que eu tinha do meu pai, e não me aproximava não porque não as desejasse, mas o perfume delas sempre chegava na frente, um soco na cara, que eu recebia resignado feito uma criança indefesa. Bunda mole, a voz em meu interior, bunda mole do caralho!

O Anel

Todos sabiam que nas terras do imperador Helêus, nos últimos dias da primavera, caía uma chuva tão torrencial, que o céu tornava-se negro como o fumo, e os raios desciam tão furiosos que assombravam até mesmo os mais experimentados guerreiros. Era assim fazia longos trinta anos, e todos sabiam disso. No mesmo dia do mês, na mesma hora, exatamente há três décadas, a mesma chuva caía, resoluta e pontual, por exatos sete dias, até desaparecer, assim como surgira, quase como que por encanto.
O velho imperador, imobilizado em sua cadeira, devido à sua idade, sentia-se ainda mais melancólico nesses dias – se é que seria possível torna-se mais lânguido do que de costume.  Ele ficava ali, sobre a sacada de seu castelo, observando a chuva lá embaixo, como se contasse cada uma das gotas refletidas em sua Iris perdida. Havia sido assim por todos aqueles anos...
Um dia, há muito tempo, um grande guerreiro atravessou aquelas terras amaldiçoadas, e a sua fama e glória veio com ele, pois todos, em todas as partes, conheciam os seus feitos e a sua honra. Então, Helêus o chamara até o seu palácio, para cumprir, talvez, a mais nobre missão de toda a sua vida...
O cavaleiro surgira, e ele não era como o imperador o imaginava. Nada de grandes músculos ou de armaduras brilhantes e espadas afiadas. Apenas um jovem envolto numa capa preta para protegê-lo do sol e do frio, e um grande otimismo nos olhos. Mas Helêus não tinha escolhas, e tinha de confiar a ele a grande missão que lhe cabia.
-Tenho uma estória triste para contar-lhe, se não se importar – disse o Imperador.
-Todas as estórias me interessam – respondeu-lhe o cavaleiro.
-Pois bem, ei-la:  Há muitos anos - anos que passaram rápido demais para que eu mesmo pudesse crer - a minha família fora escolhida para governar estas terras. Assim, cresci aqui, como um príncipe. Só me faltava uma princesa... E ela não tardou em chegar... Linda, como a mais bela flor, e carinhosa, como a brisa dos montes além daqui. E tão boa quanto os arcanjos do céu. O dia, na sua presença, ficava mais claro e colorido, e até os pássaros cantavam com mais alegria. Reservei um dia especial para nós dois, no lugar onde nos conhecemos, lá embaixo – apontou Helêus de sua sacada – ali, crescia uma linda árvore, que nos presenteava com flores o ano todo. Havia uma praça construída especialmente para ela... Era lá que deveríamos nos encontrar. Num banco embaixo da árvore, numa tarde, de um dia qualquer, que deveria se tornar especial, quando eu a pedisse em casamento... Mas aconteceu que, naquele dia, um compromisso importante, não mais importante do que ela, claro; mas ainda assim importante, me fez atrasar um pouco além do prometido. Eu era jovem, e tinha todo o tempo do mundo, você pode me entender...
     -Sim, eu posso...
     -E na tarde daquele dia, aconteceu de cair uma grande tempestade! O que me fez pensar que ela não estaria a me esperar, e que, portanto, se atrasaria, assim como eu. Mas eu estava enganado, ela me esperava... Foi nesse dia que um fulminante raio caiu do céu, e partiu a bela árvore ao meio, jogando ao ar as suas folhas, para que fossem levadas pelo vento... e o meu amor junto com elas. Nunca mais eu a vi.
     -Eu lamento...
     -Não lamente cavaleiro, não foi culpa sua. Mas seja feliz, por jamais sentir algo parecido...
Os dois permaneceram calados por um tempo.
     -Mas então... O que posso fazer pelo senhor? – perguntou o cavaleiro
     -Daqui a sete dias começará a chover, meu jovem. Vai chover como naquele dia. E isso é uma grande certeza! Tem sido assim desde que tudo aconteceu, há 30 anos! Choverá por uma semana inteira, em todo este reino, como jamais choveu em lugar algum.
     -Isso é verdade?
     -Sim. Por três décadas  assim tem sido, sempre no mesmo dia, sempre na mesma hora, por uma semana ininterrupta. Ninguém sabia explicar o porquê. Até que um dia, viram uma mulher... sentada no mesmo banco em que a minha amada me esperou um dia, antes do nefasto raio.  E todos que já a viram, afirmam não se tratar de alguém deste mundo. Você pode me compreender?
     -Um espírito? É isso que quer me dizer?
     -Você é perspicaz cavaleiro. Ela está lá, e me espera até hoje, eu sei disso... eu sinto... Os dias de chuva que a precedem carregam a mesma tristeza daquele dia, são as lágrimas dela que descem do céu chamando por mim. Já pedi muitos dos meus melhores cavaleiros para levarem a ela o meu presente, e o meu pedido de perdão, mas eles não tiveram coragem o suficiente para isso. Não posso culpá-los. Eu mesmo iria, eu desejaria isso, mas como pode ver, a minha condição não é favorável, e não sou mais o mesmo homem por quem ela se apaixonou... Não gostaria que ela me visse assim... não sei se pode me entender... só um homem apaixonado poderia...
     -Desejas que eu leve para ela o seu presente, é isso?
     -Sim! Mas compreenderei igualmente, assim como compreendi aos meus cavaleiros, se não quiser ir.
-Eu o farei – Sim, ele o fará, pois também era um homem apaixonado, e o seu grande amor ficara também para trás, por uma triste maquinação do destino.
      Helêus o chamou até um canto onde descansava uma magnífica prateleira, e de lá, retirou um pequeno objeto. Era uma caixinha branca, provavelmente entalhada a mão, numa figura que lembrava uma tartaruga. Ele a colocou nas mãos do cavaleiro...
     -Este era o meu presente, caso aceite me ajudar. Leve-o e o entregue a ela, eu o fiz com as minhas próprias mãos. Desde já lhe sou grato, valoroso rapaz, quer aceite este encargo ou não.
     -Então é só isso que preciso fazer?
     -Sim. Se o fizer, deve partir em sete dias, quando começará a chover. Você descerá até o jardim, onde se encontra a árvore e o banco, e onde os meus homens afirmam vê-la.
     -Então em sete dias partirei, e antes que o chão esteja completamente molhado, entregarei ao seu amor o seu presente!
Helêus chorou, e beijou as mãos o cavaleiro com profunda gratidão. - Só não conte a ela que me tornei um homem doente e feio, diferente do que ela conheceu...
Estórias de fantasmas não faziam bem aos ouvidos de ninguém daquelas terras. Por ali, não era supertição ou tolices acreditar em coisas assim. Pois que os espíritos andavam livres e não se ocultavam tanto dos homens. E muitas dessas almas ainda trazia um coração negro cravado em seus espíritos, como uma noite sem estrelas.
E exatamente, como previsto por Helêus, na manhã do sétimo dia, a chuva caiu. Viera junto com os primeiros raios de sol. O dia se tornou sombrio e triste, os animais se escondiam da água fria daquela manhã, e as pessoas evitavam sair de suas casas. O tapete branco de nuvens, que forrava o grande palácio sobre a montanha, ficou escuro e revolto. O cavaleiro trajou-se com uma longa capa com capuz, o qual jogou sobre a cabeça para proteger-lhe da tormenta. Sob olhares curiosos desceu a grande escadaria que levava ao jardim. Chovia forte, e as águas pesaram-lhe nos ombros, a sua visão tornou-se turva, e só enxergava alguns metros a sua frente. A bruma embaçava o caminho que ia descendo, e ao atravessar as nuvens que jaziam sob a montanha, adentrou num ambiente magnífico e fantástico! A água caía feito prata, e o verde intenso das folhas parecia iluminado por uma luz diferente, e o mármore das colunas e das amuradas lembrava a lousa fina. No fim da escada, abria-se uma grande praça, largada pelo tempo e pelos homens, de plantas murchas e ervas daninhas. Um pouco a frente, no meio do complexo arquitetônico, depois da grande e pesada cortina de água, um vulto escuro e inerte: uma grande árvore, de galhos tortuosos e secos, portadora de uma monstruosa rachadura que lhe descia da copa até as raízes. Parecia curvar-se sobre o peso de si própria, mas ainda insistia em ficar de pé. Ela já fora uma árvore muito bela, digna de figurar no centro de tão linda praça, mas o raio a destroçou naquele dia, como fizera com Helêus... As luzes dos postes ao redor estavam acesas. Apesar de ser manhã, o dia parecia estar no fim de tarde e começo da noite... Não havia nada, nem ninguém ali. Apenas o jovem cavaleiro de pé, observando o banco vazio onde as gotas da chuva se arrebentavam após a queda. Ele ouvia apenas o batuque incessante da chuva sobre a sua capa, e o escorrer da água em seu rosto, feito lágrimas. Se ele chorou ali, naquele momento, assaltado quiçá, por lembranças doloridas, jamais saberei.     Ele ficou ali, esperando de pé, por um tempo relativamente longo. Até ter a certeza de que nada iria acontecer, e de que tudo não passava de alucinação das mentes férteis dos que passavam por ali, embalados pelos acontecimentos que outrora amofinaram aquele local. Percebendo então, que não havia mais sentido esperar, ele se retirou, tomando o seu caminho pra casa. Mas tão logo se virou e uma voz o chamou de volta:
     -Ei, por favor... você!... Serias tu por acaso um mensageiro?
O cavaleiro voltou-se imediatamente em direção ao pequeno banco de pedra cravado no jardim:
     Diante dele, sentada naquele velho banco quebrado, uma jovem mulher de face pálida e triste o observava. Estava coberta por um vestido branco, e uma espécie de chapéu que lhe cobria a cabeça e só lhe revelava o seu rosto. E não obstante chovesse muito, ela lhe aparecia completamente seca:
     -Sim... eu sou... – respondeu o cavaleiro, tirando de sua cabeça o capuz que o protegia da chuva, completamente aturdido.
     -Então, isso quer dizer que ele não virá... refiro-me ao meu amor...Eu imaginei... Já o estou esperando faz horas... Mas, não me importo de ficar um pouco mais, se ele tiver de se atrasar... O que ele disse?  Se atrasará?! Ou por acaso não virá mais?... – Perguntou aflita.
     -Sim ele virá... quero dizer... ele gostaria de vir... – respondeu.
     -Então por que não veio? Diga-me?! O que o impede? – disse ela, levantando-se - O que pode estar acontecendo? Por acaso ele não me ama mais?! Saberia me dizer, jovem mensageiro?!
     -Sim ele a ama, senhorita!... E posso dizer que a ama mais do que a própria vida... porém, o que o impede de vir não tem relação com os sentimentos dele por você.
     -Como podes saber, se és apenas um simples mensageiro?
     -Mesmo um simples mensageiro conhece o amor, minha dama. E os olhos de um homem, contam muito sobre ele...
     -E o que vê nos olhos dele? – perguntou a aparição.
     -Que ele a ama muito. – respondeu-lhe
     Ela pareceu sorrir:
     -Que mensagem traz pra mim, nobre mensageiro?
     -Eu não trago uma mensagem, trago um presente, o qual ele muito recomendou.
     -Um presente?!
     -Sim. E ele mesmo o fez, com as próprias mãos – disse-lhe o cavaleiro, entregando-lhe a pequena caixa. Ela a trouxe com carinho junto ao peito. Quando a abriu, revelou-se um singelo anel dourado, onde repousava uma diminuta pedra azul, cuidadosamente trabalhada. Era um anel de noivado, feito com as próprias mãos, e coisas feitas a mão naquele reino, tinham um valor imensurável.
     A jovem suspirou profundamente... ela colocou o anel com carinho no dedo, e sorriu:
     -Lembro-me de quando encontramos esta pedra... no riacho... lá embaixo. Agora é a pedra mais preciosa do mundo, para mim.
     A chuva cessou instantaneamente. O sorriso dela abriu o tempo, e com o sol, revelou-se a sua verdadeira beleza. Agora, travestia um épico vestido azul claro, onde repousavam gotas de orvalho, e os seus cabelos amarelos, presos em cima por um belo arco prateado, desceu longo até a cintura. A jovem aproximou-se do cavaleiro, com toda a beleza espiritual que ela trazia, tão palpável e sólida quanto se viva estivesse. Pegou então na sua mão, e beijou-o no rosto. Estava radiante e grata.
     -Obrigada, jovem mensageiro... O que trouxestes até mim hoje, não tem preço! Espero que um dia, eu possa pagá-lo pelo que fez por mim, e pelo meu doce príncipe... Diga a Helêus que o amo, e que esperarei por ele, como ele esperou por mim. E diga também a ele, que não se lamentes mais, pois nosso amor foi apenas adiado. Ele era tão grande, que não cabia neste mundo... Assim como o amor que você carrega, também não cabe...
     A jovem caminhou em direção ao desfiladeiro da montanha, mas o chão não lhe fez falta. Flutuando em sua glória, acenou uma última vez para o cavaleiro, e disse uma última coisa:
      -Diga a Helêus, que embora o seu corpo esteja velho, a sua alma não envelheceu. E foi isso que eu sempre amei nele, a sua alma!
       Ela desapareceu então. No ar, por uns breves momentos, ficou o fraco brilho azul do anel que ela levou no dedo.
O cavaleiro então suspirou fundo, como se ele mesmo tirasse um grande peso de sobre os ombros. O sol brilhava e os pássaros cantavam, e o guerreiro tirou de si a pesada capa de chuva que o cobria. Deixou-se perder o olhar na imensidão do horizonte a frente de si, como se quisesse vislumbrar os portões do infinito, brevemente.
       Sorriu, penalizando a si mesmo, e voltou-se para as escadas, o caminho o esperava. Viu sobre o banco um pequeno ramalhete de flores. Eram rosas, da mais linda espécie. O vento espalhou o seu perfume no ambiente, e o cavaleiro lembrou-se do seu amor de outrora, levada também pelas maquinações do destino. O nome dela era Rosalinda. E foi a última vez que o vi chorar.

O chá das Bonecas Malígnas

Raquel caminhou até a sala de seu chefe. Esperou alguns minutos até que uma pequena reunião terminasse. Após a saída dos participantes da reunião olhou para dentro da sala e acenou. Ela foi convidada a entrar, sentou em uma cadeira e em uma conversa rápida procurou lembrar ao seu chefe que sairia para almoçar e não voltaria. O seu chefe acenou com a cabeça em confirmação e a lembrou que sua folga tinha sido acertada no dia anterior.
      Raquel saiu do trabalho e caminhou até a rua. Seu celular tocou: - Oi Ângela, realmente é tudo muito estranho. Desculpe te tirar do trabalho, mas nós devemos nos encontrar em meu apartamento. Falei com Márcia e Elisa. Eu tenho que mostrar a correspondência que recebi para vocês todas. Estou indo para lá – A voz de Raquel demonstrava toda a sua aflição. Após alguns minutos um taxi parou. Seguiu até um restaurante onde uma grande amiga de Raquel a aguardava. Após o almoço as amigas seguiram para o apartamento.
      O taxi parou, Raquel saltou do taxi junto à sua amiga, pagou ao motorista e foi em direção ao seu apartamento. Em frente à porta de seu apartamento as outras amigas convidadas para a reunião a aguardava. Ela abriu a porta e as levou até a sala. Raquel serviu Margarita Frozen para as suas amigas enquanto se acomodavam na sala.
      Uma doze de suco de limão, meia doze de Cointreau. Raquel cortou um limão e passou na borda de quatro taças. Cortou outro limão em quatro pedaços e deixou sobre a mesa além de um pires com açúcar. Suas amigas conheciam o ritual e o seguiram pegando as suas taças e após crustar as suas bordas no açúcar as beberam em um gole e morderam o limão em seguida, Raquel serviu outra doze.
      Ângela olhou para Raquel e a interrogou sobre o porquê das bebidas fora do horário, Raquel a ignorou. Pegou um envelope que se encontrava debaixo da mesa, retirou uma foto de seu conteúdo e a lançou sobre a mesa.
      As amigas de Raquel se apavoraram. A foto retratava uma mesa onde quatro adolescentes se serviam em uma mesa de chá ao lado de suas bonecas. Raquel olhou para as amigas enquanto falava: - Hoje fazem dez anos. -  As amigas de Raquel caíram batendo seus rostos sobre a mesa em um desmaio súbito.

      Dez anos antes.

    Raquel arrumava a sua boneca Ângela com todo o cuidado. Batizara sua boneca com este nome em homenagem a sua melhor amiga. Pegou a sua bolsa e seguiu para a sala. Lá se encontrava as suas amigas: Márcia, Elisa e Ângela. Na cozinha estavam as suas mães, falantes, felizes pelo sucesso das filhas. Elas tinham passado para outra etapa de suas vidas na escola. Frequentariam agora o ensino médio e Raquel se destacara como a melhor aluna.
     As amigas seguiram suas vidas na escola juntas, iniciando no maternal. Em suas brincadeiras estava o chá de bonecas que há muito tempo não realizavam. Naquele dia estariam terminando um ciclo de vida simbolizado pelo último chá de bonecas. A mãe de Raquel pediu que as meninas se juntassem à mesa para uma foto. Ao lado de suas bonecas, tendo suas belas bolsas ao colo a foto foi tirada. Ângela pegou a bolsa de Raquel falando que gostaria de ver o seu conteúdo, Raquel abriu um largo sorriso enquanto a sua amiga abria e tirava o conteúdo. Entre objetos femininos Ângela retirou e acenou para todos os convidados um papel. A mãe de Ângela pegou o papel da mão de sua filha e mostrou para todos os convidados o gabarito de uma prova de matemática. Todos ficaram chocados, a prova se tratava da prova final do curso das meninas. Raquel ficou perdida entre vários interrogatórios sem saber expressar a resposta correta. Suas amigas se entreolhavam tentando evitar a troca de olhares com Raquel.
     Os dias se passaram e o assunto chegou à escola. Raquel teve que fazer uma prova final, sua prova anterior fora anulada. Ficou marcada na escola e a sua vergonha a deixou deprimida baixando o seu rendimento escolar. Sua vida se seguiu na mesma escola com suas duas amigas, Ângela não participara mais do grupo apesar de continuar em contato, ela ganhara uma bolsa em outra escola por ter tomado o lugar de Raquel como a primeira aluna da escola. Tudo poderia ter passado em branco se não fosse o comentário que acidentalmente Raquel escutou vindo de Márcia e Elisa: - Não temos que nos preocupar, ela não descobre nem em dez anos.


      Dias atuais

     Raquel estava no escritório. Trabalhava tranquilamente em seu computador quando uma amiga de escritório olhou para o seu monitor e ficou horrorizada: - O que é isto Raquel? Como podem fazer uma coisa dessas? – Raquel respondeu: - Basta esperar dez anos.
     A tela do computador de Raquel mostrava uma foto lançada em todas as redes sociais de três mulheres nuas se tocando, ao lado de suas bonecas em uma mesa de chá.

Facebook macabro

 Há um ano ela o havia deixado. Partira para a grande viagem levada por moléstia grave que contraíra nas suas andanças pelas florestas tropicais. Não houve prece ou pajelança que desse jeito. Tino teve que se conformar. Mergulhou de cabeça nos seus projetos de pesquisa sobre as populações indígenas e seus ritos sagrados. Havia planejado todos os detalhes com Nora e juntos publicariam um trabalho na comunidade científica sobre os mistérios das tribos e civilizações perdidas da América Equatorial. Na última visita às populações ribeirinhas do Amazonas,Nora embrenhava-se pela floresta a dentro a procura de vestígios que os levassem às tribos dizimadas e seus segredos. Tino ficava na captação de dados e elaboração dos gráficos. Nora estudava os ritos de transcendência da alma ,após a morte e acreditava que o chá de um tipo específico de erva colhida pelos xamãs do Alto Xingu,poderiam aprisionar o espírito de pessoas morimbundas em objetos que estivessem próximos aos mesmos por ocasião de sua morte. Quando Nora adoeceu e foi desenganada pelos médicos,Tino fez a pajelança da transcendência. Não admitia a ideia de perdê-la. Queria Nora perto dele para sempre,aprisionando sua alma num relicário especialmente confeccionado para esse fim e colocado sobre a mesa do computador. Mas,um ano se passara e nunca conseguira nenhum contato com a mulher amada e aprisionada. Numa noite de tempestade,um raio elegeu o telhado de Tino,provocando faíscas e queimando o transformador da casa. A sobrecarga de energia,ao voltar,provocou a queima do disco rígido do computador,apagando todos os dados e arquivos armazenados.
Voltava a estaca zero. O único backup , apenas Nora sabia  executá-lo.
Ligou o computador na tentativa de recuperar algum arquivo. Passou os olhos rapidamente pelos sites sociais e por um instante deparou-se com um lembrete de aniversário que dizia: " Hoje é o aniversário de Nora, mande uma mensagem para o seu mural". Um frio percorreu sua espinha e começou a rir nervosamente."Preciso deletar o perfil de Nora",pensou.
Entrou no perfil da mulher acessando login e senha e não resistiu em dar uma "espiada" no mural. Fotos e publicações das viagens marejaram seus olhos de saudades. Parou surpreso diante de um recado criptografado que dizia:" Tino, no ctrl V está a chave que procura". Fez o que o recado pedia e surgiu à sua frente o endereço de um web site:www.noraprisioneira.com. Os dedos nervosos dedilhavam o teclado rapidamente. Clicou no link e esperou que carregasse. 35%, 50%,99% e uma mensagem surgiu: click na tela para abrir o portal.Obedeceu prontamente. Uma luz intensa cegou-o temporariamente e só conseguia ouvir a voz doce e triste de Nora:
__ Tino, porque fez isso comigo? Porque me deixou aqui,sozinha,por tanto tempo,aprisionada,nessa dimensão?
__ Nora, é você meu amor?
__Preciso que me liberte,Tino. Preciso que me deixe ir...
__Não, preciso de você,fique comigo !
__Não temos o direito de interferir na ordem natural das coisas,Tino.Por isso provoquei a sobrecarga,no dia da tempestade.Não podia deixar você com aqueles dados,tão perigosos... Agora quebre o relicário e me deixe partir.
__Não,preciso do backup,onde o colocou?
__O Xamã nos avisou o tempo todo,Tino... Não temos esse direito. Quebre o relicário agora!
__Quero o seu pendrive primeiro, querida, depois liberto você para sempre.
__Como pode ser tão egoísta,pensei que me amava...
__ A ciência espera por isso,Nora, não temos o direito de manter essa informação em sigilo. É a prova que tanto queríamos. A existência de uma alma que transcende a podridão da carne.
__ Quebre o relicário,Tino !
__ O pendrive primeiro,Nora !
__ Ok,você vai ter o que pede... Abra a segunda gaveta do meu armário. Por baixo da gaveta achará uma chave. Essa chave abre o cadeado do baú de sândalo,que me deu,quando nos casamos e juramos lealdade,um ao outro. O baú está num fundo falso do mesmo armário. Pegue o pendrive e o conecte neste computador. Só eu posso descriptografá-lo. Faça isso ,mas antes quebre o relicário.

 Rapidamente Tino foi ao armário,encontrou a chave e abriu o baú. Lá dentro estava o pendrive de Nora.Correu para o computador e conectou o pendrive... A voz de Nora surgiu imperativa:
__Quebre o relicário como prometeu,Tino!
__ Não antes de você descriptografá-lo.
__Está sendo desleal comigo de novo,Tino.
__ Não, estou apenas querendo que cumpra o que prometeu.
__ Você pediu e vai ter o que quer, Tino. Reconecte o pendrive e reinicie o computador,seus dados estarão aqui, à sua espera...

      Tino reconectou o pendrive , reiniciou o computador e não lembrou de mais nada.


                                             ***
    O  corpo carbonizado de Tino foi encontrado no dia seguinte junto aos destroços do computador. O lindo relicário, jogado pela explosão, estava intacto. O chefe da perícia , admirado pela beleza do objeto,o recolheu sem que ninguém percebesse. Em casa, colocou-o na prateleira, ao lado do notebook. Ligou-o como de costume, leu os seus e-mails e entrou no  seu site social predileto. Passou rapidamente os olhos pelas suas mensagens, quando deparou-se com um esquisito pedido para que adicionasse aos seus amigos. Foi ao perfil do sujeito e lá estava a imagem mais estarrecedora que já vira... No mural, Tino havia publicado um vídeo com horário posterior à sua morte. Não havia imagem... Apenas um barulho de gritos e gemidos de horror e o som de uma voz feminina ,ao fundo, entoando num dialeto desconhecido, uma espécie de prece indígena..

A vingança de Isabelly

Lauro era piloto de em uma companhia aérea que fazia fretes particulares. A sócia majoritária era Noêmia Kazomildes. Uma morena clara, alta de cabelos longos e olhos verdes. Noêmia tinha herdado a companhia aérea do pai, um grego que soube expandir seus negócios de aviação por quase todo o mundo.

 Há três meses estavam juntos. Foi amor à primeira vista. Lauro era casado e Noêmia não aceitava ser a outra. Por muitas vezes tinham discutido o relacionamento do casal e Lauro bem sabia que a esposa jamais daria o divorcio.
Em uma noite depois de fazerem amor, Noêmia mais uma vez pediu:
- Você precisa se livrar dela – levantou-se e foi para a sala.
Lauro ficou ali ainda um bom tempo, pensando nas palavras da amante.

Estavam jantando no terraço, quando ela voltou ao assunto.
- Você não vê?  Ela esta agarrado a você. Estar destruindo sua vida, nossas vidas querido!
- Eu não sei o que fazer Noêmia, uma única vez que tentei sair de casa ela tentou o suicídio.
- Não sabe o que fazer? Pois estamos nisto juntos! Eu ajudo você.
Ele sabia do que ela estava falando, só não sabia se teria coragem.
 E antes que abrisse a boca para protestar, ela o calou com um beijo.
Na manhã seguinte enquanto tomavam o café ele perguntou preocupado:
- E se formos apanhados?
- Se formos espertos não seremos.
- Noêmia, todos os amigos que tínhamos em comum sabem que não temos um casamento solido... E se a policia desconfiar?
- Tem de parecer um acidente – Disse Noêmia – de forma que não haja investigação policial.
- E se eles forem investigar?
- Não vão. O acidente não vai acontecer aqui no Brasil.
- Onde então?
- Ioannina, na Grécia. Lá existe inúmeros pontos turístico, um acidente em um desses pontos não seria anormal.
Ela o encarou e não viu tom de reprovação. Começaram então a traçar o plano macabro.

A vigem até Ioannina foi tranquila. Para Carina o cenário da cidade parecia bíblico, alguma coisa saída de uma outra época. Se hospedaram no hotel  Pindus, rodeado pelas belas torres dos Alpes.
- Parece tudo tão perfeito!– Exclamou Lauro
Enquanto Isabelly desfazia as malas, Lauro desceu até a recepção.
- O que se faz por aqui? – Perguntou ao recepcionista
- Tudo senhor, no hotel temos varias atividades como jogos, piscinas, uma estação de agua para tratamento de saúde. Na cidade podem-se fazer excursão, pescar nadar, sair de barco.
- Qual a profundidade do lago?
O empregado encolheu os ombros.
- Ninguém sabe, senhor. É um lago vulcânico. Não tem fundo.
- E as grutas são perto daqui? – Perguntou interessado
- Ah! As grutas de Perama? Ficam só a alguns quilometro daqui.
- Já exploradas?
- Algumas delas. Algumas ainda estão fechadas. São um tanto perigosas.
Era tudo que Lauro queria ouvir. Pegando um guia turístico voltou para o quarto.

 Na manhã seguinte Lauro acordou animado. Assim que Isabelly saiu do banheiro ele falou:
- Querida, que tal um passeio pelas grutas de Perama? – mostrou fingindo casualidade com o guia nas mãos.
- Faremos o que você decidir meu querido.
- Feito. Vamos depois do almoço. Vou até a cidade comprar umas coisas.

 Na cidade Lauro encontrou um armazém onde comprou uma lanterna de bolso, algumas pilhas e um rolo de linha.
- Esta hospedado no hotel? Perguntou o vendedor.
- Não – respondeu ele – Estou só de passagem a caminho de Antena.

 As grutas de Perama ficavam a 30 quilômetros de Ioannina. O local tinham se transformado em grandes atrações turística.
Quando Isabelly e Lauro chegaram lá eram 5 horas, uma hora antes de fechar. Lauro comprou dois ingressos e um guia da gruta.
Um guia mal vestido veio e ofereceu seus serviços.
- Não precisamos de guia.
Isabelly olhou para ele, surpresa pelo tom rude.
- Vamos – Falou enquanto a levava pelo braço.
- Tem certeza que não precisamos de um guia?
- Pra que? Tudo que temos a fazer é entrar e olhar a caverna. O folheto nos dirá tudo!
A entrada para as grutas era maior que eles imaginavam. Toda iluminada com lâmpadas e cheia de turistas que entravam e saiam.
- É fantástico! – exclamou Isabelly verificando o folheto – Ninguém sabe a idade exata delas.
A voz dela soava cavernosa, sobre o teto rochoso. Ao fundo da caverna tinham varias entradas, em uma delas, um cartaz impresso onde dizia:

PERIGO NÃO ENTRE

 Sem Isabelly perceber, Lauro desviou sua atenção do aviso, entrando abraçado com ela no local proibido.
- Estar úmido aqui. Poderíamos tentar aquela outra entrada?
- Não! - o tom de Lauro era firme - O empregado do hotel me garantiu que as mais estreitas são as mais belas de se ver.
- Mais esta escuro, tem certeza de que é seguro?
- É claro! Eles trazem as crianças das escolas aqui!
 De alguma forma ela não estava se sentindo segura. Tinha razões para tal pressagio.
 Entraram pelo túnel e tinham andado apenas alguns metros quando o circulo de luz da caverna principal atrás deles, foi engolido pela escuridão.
- Vamos para a esquerda.
- Querido não acha que devíamos voltar? Esta ficando tarde e já deve estar na hora de fechar.
- Fica aberta até as 9 e tem uma gravura em especial que o recepcionista falou que seria primordial lhe mostrar.
 Tomaram o túnel que ia pela esquerda e andaram com cuidado, por causa das pedrinhas que escorregavam sob seus pés. Lauro colocou a mão no bolso e um momento depois, Isabelly ouviu alguma coisa cair.
- Você deixou alguma coisa cair?
- Chutei um pedra disse ele – vamos andar mais rápido – e foram adiante sem Isabelly perceber que atrás deles um tubo de linha se desenrolava.
- Acho que esse lugar não gosta de nós – disse Isabelly.
- Não seja ridícula Isabelly, é só uma caverna!
- Falta muito para chegar onde você quer?
- Não muito.
- Eu estou ficando com frio querido, vamos voltar!
- Eu esquento você quando voltarmos para o hotel.
 Viraram o túnel  a direita, com o feche de luz fazendo um desenho estranho e tremulo na rocha cinzenta.
- Merda! - exclamou ele.
- Que foi?
- Acho que tomamos o caminho errado.
Isabelly concordou.
- Esta certo. Vamos voltar?
- Deixe-me ter certeza. Você fica aqui.
Ela olhou para ele surpresa.
- Onde é que você vai?
- Só alguns passos. Vou voltar para a entrada.
- Eu vou com você!
- Não! Posso ir mais depressa se for sozinho Isabelly. Só quero dar uma olhada onde fizemos a ultima curva. Volto em menos de 30 segundos.
- Esta bem – disse ela contrafeita – mas por favor, não demore!
  Isabelly ficou ali contando os segundos em pensamento, depois os minutos e as horas.
Lauro não voltou.
Ela gritou e a voz saiu rouca e tremula... Limpava a garganta e gritava de novo.
 As horas negras passavam e ela começou a encarar o fato de que alguma coisa estava terrivelmente errada. Lauro poderia ter sofrido um acidente e naquele momento estar sangrando a alguns passos dela.
Uma sensação de sufoco começou a tomar conta dela , oprimindo-a, enchendo-a de incontrolável pânico. Ela se virou e começou a andar devagar na direção em que viera. O túnel era realmente estreito, e se Lauro tivesse caído e ferido ela o encontraria.
 Gritou alto enquanto andava, e então ouvia o som de sua voz mergulhar no silencio. Um zumbindo vinha em sua direção. Ficou mais alto, correndo em direção a ela. Estava ficando cada vez mais perto. De repente, bateu em seu rosto em meio à escuridão. A pele fria e viçosa se agitou contra sua face e tocou-lhe os lábios. Isabelly sentiu algo se movendo sobre sua cabeça e garras afiadas nos cabelos. Se sentiu sufocada pelo bater enlouquecido das asas de algum horror que a atacará na escuridão.
Ela desmaiou.
 Estava deitada em uma ponta de pedra que a incomodava, e isso a fez recuperar os sentidos.
 Havia morcegos na caverna.
 Com dificuldade ela levantou-se, de algum modo tinha perdido um sapato e o vestido estava rasgado. Passando as mãos no rosto sentiu que estava sangrando. Tentou lembrar o que sabia sobre morcegos e nada vinha a sua memoria.
 Parou de repente. A distancia podia ouvir novamente o som do zumbido movendo-se em sua direção. Como que em transe encontrou-se nas paredes úmidas. Mais uma vez aquelas asas frias e pegajosas grudavam em sua pele. As garras afiadas dessa vez não pouparam seu rosto. Ela tentava em vão se proteger com as mãos. Antes que a escuridão lhe envolvesse, um pensamento macabro veio a sua mente.
- NÃO FOI UM ACASO, LAURO QUERIA ME MATAR!

Quando Lauro chegou à saída das grutas já estavam fechando. Fingindo desespero procurou o guia e falou:
- Por favor me ajude! Minha esposa estava logo atrás de mim, quando percebi ela já não estava mais!

 Uma equipe de busca foi formada em menos de 10 minutos. Durante toda a noite as buscas foram intensa. Lauro acompanhou todo o processo incansável. Quando amanheceu o dia ele foi conduzido a uma delegacia para prestar depoimento.
As buscas foram encerradas três dias depois. Isabelly Veiga, turista Brasileira, foi dada oficialmente como desaparecida. Lauro foi liberado pela policia grega depois de ouvir do policial que sua esposa não tinha sido a primeira turista a desaparecer nas grutas Perama.

 Ela estava deitada, quieta e rígida para que os morcegos não pudessem encontra-la... Procurou ouvir o bater das asas, com os olhos bem fechados.
Uma voz de mulher disse:
- É um milagre que a tenhamos encontrado.
- Ela vai ficar boa? – perguntou outra voz.
- Sim. Mas seu rosto foi destruído.
- O que será que aconteceu irmã?
- Só Saberemos quando ela acordar.
 O convento das carmelitas ficava ao norte de Ioannina, Isabelly tinha sido encontrada vagando por uma estrada que dava a lugar nenhum pelo padre Lombardini que ia até aquele convento uma vez por mês para rezar a missa.  Seu rosto era uma massa deforme de sangue, seus braços e pernas estavam cobertos de sangue, descalça e com o vestido em frangalhos foi acolhida na velha caminhonete e conduzida para o convento, onde as freiras fizeram o que foi possível para salva-lhe a vida.
Um ano tinha se passado quando o magnata Demitris Douglas que sustentava aquela instituição ao fazer uma visita as irmãs carmelitas, ficou chocado quando por acaso avistou na beirada do lago que rodeava o convento aquela menina mulher sem rosto.

 Para Demitris foi um desafio. Isabelly não lembrava quem era, ou o que tinha lhe acontecido. Depois de convencer as irmãs, levou aquela menina para Antenas onde a entregou ao doutor Katz dizendo:
- Refazer esse rosto agora é uma questão de honra. Procurei o melhor entre os melhores e encontrei você. Refaça-o.
Isabelly seria eternamente grata a Demitris. A muito tinha percebido que ele estava apaixonado, mais seu coração não tinha espaço para o amor.

 Agora estava na hora de cobrar sua divida. Depois de passar por uma equipe de psicólogos e varias cirurgias plásticas, ela sabia quem era e o que tinha lhe acontecido. No inicio Demitris tentou faze-la desistir de sua vingança. Mas ela foi irredutível:
- Faça então o que tem que fazer, meu amor. Estarei te esperando aqui em Ioannina.
Dona de um corpo escultural, o rosto lhe era desconhecido, mais as feições refeitas eram perfeitas. O doutor Katz tinha feito um ótimo trabalho.
 No passaporte tinha o nome de Graziela Santareno. Embarcou para o Brasil com uma mala cheia de ressentimentos. A hora da vingança tinha chegado!

 Há dois meses trabalhava para a companhia Kazonildes. O escritório no Brasil ficava em Santa Catarina. E era naquela cidade que o casal vivia felizes, achando que seria para sempre.
 Com sua formação profissional e um rosto bonito, não foi difícil ser contratada como secretaria particular do agora presidente da companhia Lauro Cerqueira.
 De secretaria a amiga do casal foi um salto. Noêmia tinha ela como sua amiga e confidente. Certa tarde, Noêmia a chamou na sala e convido-a para acompanha-los em um final de semana a sua cabana de caça. Finalmente a oportunidade que esperava.
A viagem foi tranquila, a cabana não ficava muito longe da cidade e um final de semana seria suficiente para o que ela tinha em mente.

 Chegaram ao final da tarde, e como uma boa secretaria e amiga, se ofereceu para preparar o jantar, enquanto o casal preparava os equipamentos de caça.
O casal estava no alpendre quando ela chegou com dois drinques e entregou a cada um.
- E você não nos acompanha? – Perguntou Lauro.
- Prefiro não! Preparei apenas dois, do mais, não bebo antes do jantar.

 Depois dos primeiros goles o casal reclamou de dormência no corpo. 5 minutos depois, estavam ambos passando mal.
 Com os olhos embasados e a língua enrolada, Lauro perguntou enquanto tentava reanimar Noêmia que parecia em pior estado que ele.
- O que você fez?
Com um sorriso no rosto ela falou.
- Não é melhor você perguntar quem eu sou?
 Naquele momento, Lauro sabia que ia morrer. Ali na sua frente, estava nada mais nada menos que Isabelly, a mulher que ele acreditava ter morrido nas grutas de Perama.
- Pois é Lauro, pelo seu olhar de pânico acho que já sabe quem sou. Agora quanto ao que fiz, não se preocupe! É só um veneno que vai lhe deixar dormente por um bom tempo. Tempo suficiente para sentir a dor de ver o fogo consumindo sua pele e da vadia de sua atual esposa.
Impossibilitado de qualquer movimento eles se viram sendo arrastado para dentro da cabana.
- Me perdoa belly! – Ainda tentou implorar com a língua enrolada, - Foi tudo ideia dela!
 Noêmia implorava clemencia e jurava nada saber do que eles falavam.
- Não zombe de minha inteligência - Falou isabelly - tenham ao menos a decência de morrerem com dignidade.

 Depois de transportar os dois para dentro da cabana. Foi até o carro, com uma mangueira e retirou o que pode da gasolina. Jogou nos cantos estratégico da cabana, não esquecendo de deixar um pouco para molhar o casal. Não queria correr os mesmos riscos que eles correram.
 Ficou ali parada vendo as chamas consumir a cabana enquanto os gritos do casal lhe servia de musica para seus ouvidos.

 Três dias depois em Ioannina, despertou ao lado de Demetris, o homem que a ajudou a se reconstruir. Abriu a janela do quarto e seus olhos prestigiaram o caminho até as cavernas, onde tudo começou.