Transformei a escrita de terror em babaquice. Não, não, não, não... Tudo errado! Apague e escreva de novo!
Transformei
o medo em ilusão. Sim, agora esta certo. Estou certo. O medo é o
desconhecido, e aquilo que nossos olhos não veem pode ser considerado
como ilusão. Não. Errado de novo. Besteira esta de colocar ilusão no
meio do desconhecido!
Quando eu era menino, vagava decadente, cheio
de historias pra contar e ninguém para ouvir. Agora que tenho palavras e
ouvidos, me calo por medo de me envergonhar. Me envergonhar? Será que
existe esta certeza dentro de mim? Quando o frio da noite vem, me aqueço
debaixo do edredom e rezo firme para não chover. Às vezes a reza não
vale, a chuva cobre meu mundo e o telhado de zinco pipoca, tal qual as
teclas do meu computador. Tenho medo da chuva. Medo é ilusão, eu
afirmei! Eu estava errado novamente, e, agora estou certo: medo é apenas
medo.
Ainda pequeno, minha mãe quis sair para se divertir, fez uma
boneca de pano parecida com ela, se levantou da cama e a pôs do meu
lado, para eu acordar e pensar que fosse ela, assim dormiria tranquilo
enquanto a danada festejava. Eu não dormi, pois a maldita boneca de pano
cochichava a noite toda em meu ouvido, me amaldiçoando e conduzindo
minha alma ao inferno.eu não fui com ela ao inferno,estou aqui, lhes
contando que fui enganado e assombrado ao mesmo tempo.
Eu escrevi um
conto. Era sobre uma menininha que vagava na escuridão, a procura da
mãe morta. Quando a encontrou, descobriu que ela estava viva e podre.
Apaguei. É tão fácil criar terror infantil, é fácil fadar a inocência,
colocar um pequeno em situação completamente absurda e desvendar os
medos e as maldições.
Comecei outro conto sobre um tolo que escapou
da forca, que correu atrás de seu carrasco e acabou por enforca-lo com a
mesma corda. Remoído em remorsos, se enforcou. Estória fraca, muita
corda pra pouco pescoço. Meus leitores merecem mais...
Ouvi um
barulho lá fora. Não é a chuva, e por mais que isto me incomode, o medo
não vem! Ouso investigar, pego o farolete e guio a luz forte em meu
quintal. A porta da cozinha se tranca... Eu estou preso lá fora, sozinho
e com medo. A chuva cai e o vento parece querer conversar comigo, assim
como a boneca sombria... Eu tento responder, pois às vezes converso
comigo mesmo. Me faço perguntas e me dou as respostas, um monologo
cansativo e exaustivo, mas que me ajuda a criar tolas e necessárias
frases de efeito.
O barulho no fundo do quintal se faz mais forte...
Ainda assim não é a chuva, tão pouco o vento. Eu calo as incertezas e
jogo a luz do farolete no local suspeito, debaixo do pé de amora. Eu o
vejo pendurado lá, o enforcado de minha historia apagada! Eu me calo em
medo e agonia! Meu coração dispara de forma preocupante e caiou no chão,
com um começo de enfarte. Uma menina me vem, ignora meu sofrer e me
pergunta:
— O senhor viu a minha mãe?
O desespero aumenta
devassamente... Mordo minha língua e sinto o sangue do corte invadir
minha garganta seca, o velho coração não vai resistir... Sinto o cheiro
de carne pútrida, ela surge diante de nós... A mãe morta... A menina
grita em desespero, quase estourando meus tímpanos. A mulher podre a
esgana, eu sou testemunha de minha própria loucura...
O homem despenca de sua forca e rasteja até nós... Eu estou condenado... O coração fraco sofre de medo, angustia e dor.
Ela
me arrasta para dentro de casa, me joga na cama e coloca ao meu lado a
boneca de pano... A chuva grossa bate no teto de zinco e ainda
agonizando, ouço-a cochichar suas artimanhas em meu ouvido.
É só a morte... A morte vem e eu nem tenho um titulo pro texto... Tanto faz. Não gosto mais de escrever mesmo...
domingo, 13 de outubro de 2013
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Eternidade
Ele deu-lhe a mão, apoiando-a e ajudou-a a subir ao topo da grande pedra. Depois, lado a lado, olharam para a paisagem, que de fato tirava o folego, de tão surpreendente era. O lago e a vegetação captavam múltiplas cores, tornando as imagens quase surreais.
"Gostavas de viver aqui? Ter aqui uma cabana de fim de semana?"
"Sim, porque não? Sempre amei o contato com a natureza." - exclamou, emocionado.
Ela olhou-o de soslaio, ele fixou os seus olhos verdes nos dela, que eram castanho escuros. Foi-lhe impossível resistir, tocou de novo nos seus dedos e sentiu o calor e a macieza da mão dela. Bem como uma suave pressão, correspondendo ao seu toque.
Aproximou o seu rosto do dela até que os lábios se tocaram, a boca dela entreaberta, os lábios húmidos, recetivos. O seu calor inebriou-o e a respiração acelerou. A língua, atrevida, insinuou-se e dançou dentro da boca dela, salivas humedecendo aquele doce contato.
Incapaz de se controlar, as suas mãos percorreram o corpo feminino, fremente, muito próximo do seu, afloraram os seios, os bicos espetados de desejo como que o saudaram. As pernas de ambos fraquejaram e deitaram-se um pouco à toa na relva fresca, sem se separar.
Agora era ela que lhe acariciava o peito robusto e peludo, deslizando os dedos por baixo da camisa.
Despiram-se desajeitadamente e estando ela sobre ele fizeram-se num só corpo, num só ser. Gemeram no arrebatamento da paixão...
Passados largos minutos e sossegado o ímpeto do desejo, beijou docemente aquele rosto junto ao seu, sentindo o respirar agora calmo. Ela de olhos fechados, ele olhando o céu...
"Amo-te! " .
"Eu também te amo. Muito! " .
Abraçaram-se mais fortemente e ficaram assim, indiferentes ao correr dos segundos, dos minutos, das horas... Como se tivessem começado a viver naquele instante... Então ele teve a certeza que naquele ambiente natural, meio selvagem, tinha descoberto a verdadeira razão de existir. O céu, toda a natureza que os cercava tinha agora outras matizes, oscilando de cor como se fosse um arco-íris. Aquela mulher lindíssima, doce e ternurenta, havia parado a sua demanda. Não mais teria necessidade de procurar: ela seria a mulher da sua vida. Para toda a eternidade.
Uma nova história
Paulo saiu da clínica confuso demais.
Como imaginar um exame de rotina, que ele fez somente porque a querida mãe insistiu (aproveitando uma visita de Dona Vânia ao médico da família a qual ele acompanhou), quase brincando, trazendo uma informação tão grave e inesperada?
Se ele sentia o corpo bastante saudável e a mente repleta de energia, como estaria condenado à morte?
Como digerir a dura verdade?
Cinco a seis meses de vida, segundo o médico, restavam para que Paulo abandonasse a pátria azul.
Após pedir a Doutor Célio que não contasse aos pais, prometendo, na segunda, começar o tratamento rigoroso, Paulo resolveu ver o mar.
Nunca mais fizera isso.
A namorada, Ritinha, não aprovava.
Sempre reclamava quando ouvia tais sugestões de Paulo.
Contemplar o mar, ver o Sol iniciar o descanso, olhar o céu estrelado, na concepção dela, era pura tolice.
Observando o mar demoradamente, Paulo percebeu que, em breve, deixaria uma vida chatérrima.
Ele não gostava de Ritinha.
Somente decidiu casar com a moça, pois os pais, principalmente o genitor, um empresário importante, definiu a união de Paulo com a filha de um outro grande empresário.
Considerando que o casal cresceu no mesmo círculo, ambicionando construir um patrimônio seguro, Doutor André aconselhou Paulo a transformar a amizade em algo mais sério.
Tudo muito conveniente, porém contrário aos anseios de Paulo.
Débora, a irmã do amigão José, sempre foi a grande paixão de Paulo.
Os dois irmãos, naquela noite de sexta, viajariam para Paris.
Eles pretendiam investir na carreira artística.
Receberam um convite tentador de um cineasta.
Independentes, ousados, donos de uma boa herança após a morte prematura dos pais, os dois não recusaram a proposta.
Convidaram Paulo, sugerindo que o jovem largasse o futuro idealizado pelo pai, trocando comandar empresas por satisfazer a vontade de ser ator a qual o moço sempre nutriu.
Débora, também apaixonada por Paulo, pediu, insistiu, mas o dever filial e a covardia prevaleceram.
O rapaz não topou encarar a aventura.
O celular tocou, ele conferiu o nome “Ritinha”.
Não sentiu o mínimo desejo de atender.
Falar com Ritinha, seguir adiante com o noivado, continuar um projeto o qual nenhuma emoção despertava, não fazia qualquer sentido agora.
Se ele estava morrendo, se daqui a seis meses já não habitaria o globo, Paulo percebeu que, no término da vida, a melhor opção era viver.
Paulo se levantou e atirou o celular o mais longe possível.
O objeto desapareceu no meio das águas tranqüilas do bonito mar.
Alguns adolescentes, curtindo a bela manhã, jogavam bola.
Ele pediu para participar.
Os garotos estranharam, no entanto permitiram.
A pelada seguiu durante cerca de trinta minutos.
Paulo jamais se divertira tanto.
Por que crescemos fazendo a criança solta e alegre sumir?
Na hora de retornar, Paulo notou que o seu carro não estava no local onde o colocou.
Provavelmente roubaram o veículo.
Paulo sorriu.
Interpretou o fato como um sinal de que os carrões que sempre guiou pertenciam ao passado.
Ele resolveu experimentar um ônibus.
Conheceu, então, o famoso buzu.
Meio atrapalhado confundiu as portas.
O cobrador não tinha troco, mas Paulo não ligou.
Durante a curta viagem, sentado, o rapaz, observando as paisagens, considerou a experiência muito legal.
Chegando em casa, encontrou os pais inquietos.
_ Paulinho, Ritinha está preocupada querendo falar contigo!
A pergunta de Dona Vânia fez Paulo sentir uma forte tristeza, pois a nova jornada não contaria com a presença da adorável mãe.
Eles jamais ficaram afastados, no entanto seria impossível convencer a mãe a acompanhá-lo nesse instante.
_ Mamãe, eu não tenho mais nada para falar com Ritinha.
_ Como assim, Paulinho?
_ Eu tomei uma decisão importante. À noite seguirei com José e Débora rumo a Paris. Eu vou ser ator.
O pai, revelando surpresa e irritação, indagou:
_ Você está louco, Paulo?
_ Não, papai! Eu estou bastante lúcido. Nunca gostei de Ritinha, ela sempre foi uma amiga. Eu nunca quis ser empresário, eu pretendo me tornar um excelente ator de cinema.
_ Se você viajar, eu vou te deserdar. Eu não vou sustentar os seus sonhos imbecis e inúteis!
_ Não tem problema, papai! Eu me viro. Vou separar algumas roupas para a viagem. Só preciso de duas ou três peças. O resto das coisas eu agradeço, mas pertencem ao senhor, portanto podem ficar aqui.
A mãe chorando perguntou:
_ O que está acontecendo, Paulinho?
_ Mamãe amada, eu peço que compreenda a minha decisão. Eu preciso desfrutar a vida que combina com o meu coração.
Os dois se abraçaram emocionados.
Trinta minutos depois, Dona Vânia obrigou Paulo a lanchar, deu algum dinheiro ao rapaz e lhe desejou muita felicidade.
O pai ficou trancado no quarto.
_ Prometa que vai ligar!
_ Assim que eu puder, dou notícias. Fique bem, mamãe!
Paulo beijou Dona Vânia com uma ternura especial.
_ Eles virão te pegar?
_ Eles não sabem que eu vou com eles!
_ Como?
Paulo saiu apressado e sorridente.
Antes de atravessar o portão, beijou a empregada e gritou:
_ Tchau, papai! Tchau, mamãe! Torçam por mim!
Ele voltou a pegar um ônibus.
Seguiu rumo ao aeroporto.
Faltavam cinco horas para o vôo dos irmãos sonhadores.
Ele sabia, pois havia combinado abraçar a dupla no aeroporto.
Quando Débora chegou e percebeu a mochila de Paulo, falou alegre:
_ Eu não acredito, Paulo! Você vai conosco?
_ Se vocês dois aceitarem bancar um marmanjo enquanto eu me organizo, eu viajo com vocês.
José respondeu animado:
_ A gente promete não deixar você morrer de fome!
Quinze dias depois, Paulo ligou para a mãe.
_ Mamãe, tudo bem?
_ Paulinho, por que demorou tanto de ligar, meu filho?
_ Eu primeiro me organizei, depois liguei conforme prometi.
_ Paulinho, a gente ficou sabendo do exame. Doutor Célio te procurou no dia seguinte e explicou o que aconteceu. Você pode ficar calmo, houve um erro, trocaram os resultados, Você não está doente, meu querido!
_ Que maravilha, mamãe! Eu nem sequer pensava nesse assunto, mas é muito bom saber que não estou morrendo.
_ Você vai continuar querendo ser artista?
_ Claro, mamãe! O erro do resultado foi a melhor coisa que aconteceu. Me diga uma coisa, como está Dulce (a empregada), papai e Ritinha? Eu reconheço que viajar sem dizer nada a ela não foi legal...
Dona Vânia interrompeu:
_ Não ligue pra isso, Paulinho! Soube que ela já está namorando outro rapaz. Nesse ponto você acertou. André continua revoltado, mas vai passar. Dulce, igual a mim, está cheia de saudade.
Mãe e filho prosseguiram conversando cerca de mais dez minutos.
Encerrando a ligação, Paulo se aproximou da janela do apartamento o qual dividia com Débora, a futura esposa, e José, o amigo de infância.
Os projetos artísticos avançavam de maneira auspiciosa.
O cineasta estava empolgado com o trio.
O rapaz, respirando fundo, admirando uma árvore distante, concluía que paradoxalmente iniciara a vida após saber que deixaria de viver.
A mudança positiva que aconteceu parecia uma mágica genial.
Quantos, escutando a notícia de uma doença terminal, não ficariam desesperados e complicariam o quadro orgânico com o desequilíbrio emocional?
No caso de Paulo, a notícia fez o rapaz alterar os passos da jornada.
Ele anulou uma existência artificial e criou uma nova história.
Essa nova história Paulo merecia.
Todos nós merecemos.
Ela é composta por metas que cada ser humano alimenta, entretanto não poucas vezes costumamos desprezar a proposta real do âmago e elaborar um conto sem graça, com um enredo bem desagradável.
Paulo felizmente não hesitou.
Supondo que as suas horas estavam contadas, buscou desfazer as páginas tristes, que nem sequer teve o direito de escrever, preparando páginas especiais e fascinantes.
Depois de vinte e cinco anos jogados fora, nosso herói experimentou um encontro precioso e inesquecível.
Ele encontrou ou, talvez possamos afirmar, reencontrou a vida.
Um abraço!
Como imaginar um exame de rotina, que ele fez somente porque a querida mãe insistiu (aproveitando uma visita de Dona Vânia ao médico da família a qual ele acompanhou), quase brincando, trazendo uma informação tão grave e inesperada?
Se ele sentia o corpo bastante saudável e a mente repleta de energia, como estaria condenado à morte?
Como digerir a dura verdade?
Cinco a seis meses de vida, segundo o médico, restavam para que Paulo abandonasse a pátria azul.
Após pedir a Doutor Célio que não contasse aos pais, prometendo, na segunda, começar o tratamento rigoroso, Paulo resolveu ver o mar.
Nunca mais fizera isso.
A namorada, Ritinha, não aprovava.
Sempre reclamava quando ouvia tais sugestões de Paulo.
Contemplar o mar, ver o Sol iniciar o descanso, olhar o céu estrelado, na concepção dela, era pura tolice.
Observando o mar demoradamente, Paulo percebeu que, em breve, deixaria uma vida chatérrima.
Ele não gostava de Ritinha.
Somente decidiu casar com a moça, pois os pais, principalmente o genitor, um empresário importante, definiu a união de Paulo com a filha de um outro grande empresário.
Considerando que o casal cresceu no mesmo círculo, ambicionando construir um patrimônio seguro, Doutor André aconselhou Paulo a transformar a amizade em algo mais sério.
Tudo muito conveniente, porém contrário aos anseios de Paulo.
Débora, a irmã do amigão José, sempre foi a grande paixão de Paulo.
Os dois irmãos, naquela noite de sexta, viajariam para Paris.
Eles pretendiam investir na carreira artística.
Receberam um convite tentador de um cineasta.
Independentes, ousados, donos de uma boa herança após a morte prematura dos pais, os dois não recusaram a proposta.
Convidaram Paulo, sugerindo que o jovem largasse o futuro idealizado pelo pai, trocando comandar empresas por satisfazer a vontade de ser ator a qual o moço sempre nutriu.
Débora, também apaixonada por Paulo, pediu, insistiu, mas o dever filial e a covardia prevaleceram.
O rapaz não topou encarar a aventura.
O celular tocou, ele conferiu o nome “Ritinha”.
Não sentiu o mínimo desejo de atender.
Falar com Ritinha, seguir adiante com o noivado, continuar um projeto o qual nenhuma emoção despertava, não fazia qualquer sentido agora.
Se ele estava morrendo, se daqui a seis meses já não habitaria o globo, Paulo percebeu que, no término da vida, a melhor opção era viver.
Paulo se levantou e atirou o celular o mais longe possível.
O objeto desapareceu no meio das águas tranqüilas do bonito mar.
Alguns adolescentes, curtindo a bela manhã, jogavam bola.
Ele pediu para participar.
Os garotos estranharam, no entanto permitiram.
A pelada seguiu durante cerca de trinta minutos.
Paulo jamais se divertira tanto.
Por que crescemos fazendo a criança solta e alegre sumir?
Na hora de retornar, Paulo notou que o seu carro não estava no local onde o colocou.
Provavelmente roubaram o veículo.
Paulo sorriu.
Interpretou o fato como um sinal de que os carrões que sempre guiou pertenciam ao passado.
Ele resolveu experimentar um ônibus.
Conheceu, então, o famoso buzu.
Meio atrapalhado confundiu as portas.
O cobrador não tinha troco, mas Paulo não ligou.
Durante a curta viagem, sentado, o rapaz, observando as paisagens, considerou a experiência muito legal.
Chegando em casa, encontrou os pais inquietos.
_ Paulinho, Ritinha está preocupada querendo falar contigo!
A pergunta de Dona Vânia fez Paulo sentir uma forte tristeza, pois a nova jornada não contaria com a presença da adorável mãe.
Eles jamais ficaram afastados, no entanto seria impossível convencer a mãe a acompanhá-lo nesse instante.
_ Mamãe, eu não tenho mais nada para falar com Ritinha.
_ Como assim, Paulinho?
_ Eu tomei uma decisão importante. À noite seguirei com José e Débora rumo a Paris. Eu vou ser ator.
O pai, revelando surpresa e irritação, indagou:
_ Você está louco, Paulo?
_ Não, papai! Eu estou bastante lúcido. Nunca gostei de Ritinha, ela sempre foi uma amiga. Eu nunca quis ser empresário, eu pretendo me tornar um excelente ator de cinema.
_ Se você viajar, eu vou te deserdar. Eu não vou sustentar os seus sonhos imbecis e inúteis!
_ Não tem problema, papai! Eu me viro. Vou separar algumas roupas para a viagem. Só preciso de duas ou três peças. O resto das coisas eu agradeço, mas pertencem ao senhor, portanto podem ficar aqui.
A mãe chorando perguntou:
_ O que está acontecendo, Paulinho?
_ Mamãe amada, eu peço que compreenda a minha decisão. Eu preciso desfrutar a vida que combina com o meu coração.
Os dois se abraçaram emocionados.
Trinta minutos depois, Dona Vânia obrigou Paulo a lanchar, deu algum dinheiro ao rapaz e lhe desejou muita felicidade.
O pai ficou trancado no quarto.
_ Prometa que vai ligar!
_ Assim que eu puder, dou notícias. Fique bem, mamãe!
Paulo beijou Dona Vânia com uma ternura especial.
_ Eles virão te pegar?
_ Eles não sabem que eu vou com eles!
_ Como?
Paulo saiu apressado e sorridente.
Antes de atravessar o portão, beijou a empregada e gritou:
_ Tchau, papai! Tchau, mamãe! Torçam por mim!
Ele voltou a pegar um ônibus.
Seguiu rumo ao aeroporto.
Faltavam cinco horas para o vôo dos irmãos sonhadores.
Ele sabia, pois havia combinado abraçar a dupla no aeroporto.
Quando Débora chegou e percebeu a mochila de Paulo, falou alegre:
_ Eu não acredito, Paulo! Você vai conosco?
_ Se vocês dois aceitarem bancar um marmanjo enquanto eu me organizo, eu viajo com vocês.
José respondeu animado:
_ A gente promete não deixar você morrer de fome!
Quinze dias depois, Paulo ligou para a mãe.
_ Mamãe, tudo bem?
_ Paulinho, por que demorou tanto de ligar, meu filho?
_ Eu primeiro me organizei, depois liguei conforme prometi.
_ Paulinho, a gente ficou sabendo do exame. Doutor Célio te procurou no dia seguinte e explicou o que aconteceu. Você pode ficar calmo, houve um erro, trocaram os resultados, Você não está doente, meu querido!
_ Que maravilha, mamãe! Eu nem sequer pensava nesse assunto, mas é muito bom saber que não estou morrendo.
_ Você vai continuar querendo ser artista?
_ Claro, mamãe! O erro do resultado foi a melhor coisa que aconteceu. Me diga uma coisa, como está Dulce (a empregada), papai e Ritinha? Eu reconheço que viajar sem dizer nada a ela não foi legal...
Dona Vânia interrompeu:
_ Não ligue pra isso, Paulinho! Soube que ela já está namorando outro rapaz. Nesse ponto você acertou. André continua revoltado, mas vai passar. Dulce, igual a mim, está cheia de saudade.
Mãe e filho prosseguiram conversando cerca de mais dez minutos.
Encerrando a ligação, Paulo se aproximou da janela do apartamento o qual dividia com Débora, a futura esposa, e José, o amigo de infância.
Os projetos artísticos avançavam de maneira auspiciosa.
O cineasta estava empolgado com o trio.
O rapaz, respirando fundo, admirando uma árvore distante, concluía que paradoxalmente iniciara a vida após saber que deixaria de viver.
A mudança positiva que aconteceu parecia uma mágica genial.
Quantos, escutando a notícia de uma doença terminal, não ficariam desesperados e complicariam o quadro orgânico com o desequilíbrio emocional?
No caso de Paulo, a notícia fez o rapaz alterar os passos da jornada.
Ele anulou uma existência artificial e criou uma nova história.
Essa nova história Paulo merecia.
Todos nós merecemos.
Ela é composta por metas que cada ser humano alimenta, entretanto não poucas vezes costumamos desprezar a proposta real do âmago e elaborar um conto sem graça, com um enredo bem desagradável.
Paulo felizmente não hesitou.
Supondo que as suas horas estavam contadas, buscou desfazer as páginas tristes, que nem sequer teve o direito de escrever, preparando páginas especiais e fascinantes.
Depois de vinte e cinco anos jogados fora, nosso herói experimentou um encontro precioso e inesquecível.
Ele encontrou ou, talvez possamos afirmar, reencontrou a vida.
Um abraço!
A bela do casarão abandonado
Quando João pegou a coleira e a pôs no pequeno Bob nem se passava pela
sua cabeça o que iria acontecer naquela monótona e nublada manhã de
segunda-feira.
Ao sair pelo portão, João usava um conjunto de moletom cinza, uma touca de lã preta, tênis brancos e um cronômetro para controlar o tempo da caminhada.
Ao dobrarem a esquina, logo percebeu que embora ainda fosse 07h05min, a avenida estava totalmente silenciosa, algo tão estranho que acabou o intrigando já que normalmente já estaria um trânsito insuportável. Não deu muita importância, continuou caminhando normalmente como se tudo estivesse normal.
Ao passarem pelo arvoredo em frente do casarão abandonado Bob começou a latir sem parar dando trancos em seu dono que não conseguia o controlar.
Inutilmente João dava ordens ao cão que insistia em encarar o velho casarão amarelado. Vencido pelo cansaço, seu dono resolveu encarar o desafio de entrar sozinho na velha mansão Petrone.
Afastando-se dos galhos das árvores descuidadas, empurrou o velho portão rangente, foi caminhando lentamente quintal adentro rumo à porta principal. No caminho havia uma piscina gigantesca estilo olímpica, só que cheia de matos e sujeiras de tudo quanto é tipo, a água fedia insuportavelmente a ponto de ter que tapar o nariz.
Logo na entrada principal tinha uma pequena escada, cinco degraus para ser exato, um corrimão de madeira que era um paraíso para os cupins.
A porta estava entreaberta e a maçaneta era de ouro puro, tentou arrancá-la e colocar no bolso, mas não conseguiu. Caminhou casa adentro.
O que mais o impressionou foi o fato de que dentro da casa era totalmente diferente de fora, tudo estava limpo e na mais perfeita arrumação. Havia uma escada enorme como nos grandes palácios europeus, o lustre da sala principal era todo de diamantes que brilhavam tanto que chegava a ofuscar os olhos, uma sala de jantar com uma mesa com doze cadeiras pesadíssimas, aliás, toda a decoração baseava-se em móveis antigos, tabaco fosco estilo à antiga burguesia.
O aspirante a explorador virou-se, com a intenção de ir embora pensando que a qualquer momento o morador daquela casa iria aparecer botando-o para fora a pontapés, quando de repente a porta se fechou sozinha e um forte vento o empurrou para dentro fazendo-o cair sobre o sofá vermelho sangue. Neste momento Bob já estava todo encolhido sob a mesa de centro.
Uma voz baixa no alto da escada aumentava gradativamente à medida que ia aproximando-se da parte térrea.
- Não tenha medo. - repetia insistentemente a voz. - Por favor, não tenha medo de mim.
Curioso, resolveu levantar os olhos por cima do encosto do sofá para saber a quem pertencia aquela doce voz feminina.
Ficou totalmente enfeitiçado pela beleza daquela jovem moça que embora fosse dona de uma beleza como nunca vira antes, o parecia tão infeliz e tão sozinha... Sentiu um nó na garganta ao perceber a tristeza em seus olhos.
Ela aproximou-se um pouco mais e sentou-se ao seu lado no sofá, ele tirou a toca e deu uma ajeitada nos cabelos. Começaram a conversar.
À medida que a conversa se estendia, João ficava cada vez mais entusiasmado com a moça que agora ele sabia o nome, um nome que nunca ouvira antes: Flor-do-Campo.
Flor-do-Campo tinha um olhar diferente que provocava certo transe no rapaz, ele mal conseguia piscar em sua presença.
Certa altura da conversa, a moça o convidou para almoçar, eles comeriam um prato nunca provado por ele antes.
Sentaram-se aquela extensa mesa de jantar, Flor-do-Campo bateu palmas e foram servidos por dois criados totalmente esquisitos que encaravam o rapaz e lançavam olhares e pequenos risos à senhoria que disfarçava questionando se o jovem estava gostando da comida.
Após limpar o prato, curioso, perguntou o que eles haviam comido, ela soltou um risinho sarcástico e respondeu que eles haviam almoçado "cão à moda do chefe".
Um tremor invadiu todo o seu corpo, apressadamente chamou por Bob, mas o cão não atendia. Questionou qual cão eles haviam comido e onde estava o seu amigo.
Ela continuou com o riso sarcástico, mirou-o fixamente e perguntou se ele não reconhecia os latidos de seu próprio cão em sua barriga. No mesmo instante ele cuspiu, empurrou a cadeira e correu para a porta, mas a porta não abria.
Nervoso, pediu que ela abrisse a porta para que pudesse sair, no entanto ela perguntou se não haviam o ensinado a nunca invadir propriedade alheia, continuou dizendo que a partir do momento em que ele adentrou o seu quintal, havia se tornado propriedade sua e que jamais poderia sair dali já que ele seria servido no jantar daquela noite.
Para a infelicidade de João, a bela jovem era na verdade uma espécie de ser que a centenas de anos ganhava forças e rejuvenescia através do consumo de carne humana, advindo de um pequeno planeta até então desconhecido pelos humanos. Nos dia-a-dia, alimentava-se apenas de pequenos animais que entravam em sua propriedade, só que pelo menos uma vez a cada seis meses precisava devorar um humano para não morrer, não tinha preferência por homem ou mulher, contanto que fossem adultos, mas percebeu logo que chegou em nosso corpo celeste que era mais fácil atrair os homens do que as mulheres. E foi assim desde então que ela vem atuando silenciosamente.
Os dois criados o pegaram, o amarraram, o amordaçaram e prepararam um grande caldeirão com temperos dos mais variados tipos... O jogaram dentro.
Naquela noite João foi servido como prato principal num grande banquete no velho casarão abandonado.
Conta-se por aí que a curiosidade matou um gato, neste caso, matou um jovem e o seu fiel cão.
Ao sair pelo portão, João usava um conjunto de moletom cinza, uma touca de lã preta, tênis brancos e um cronômetro para controlar o tempo da caminhada.
Ao dobrarem a esquina, logo percebeu que embora ainda fosse 07h05min, a avenida estava totalmente silenciosa, algo tão estranho que acabou o intrigando já que normalmente já estaria um trânsito insuportável. Não deu muita importância, continuou caminhando normalmente como se tudo estivesse normal.
Ao passarem pelo arvoredo em frente do casarão abandonado Bob começou a latir sem parar dando trancos em seu dono que não conseguia o controlar.
Inutilmente João dava ordens ao cão que insistia em encarar o velho casarão amarelado. Vencido pelo cansaço, seu dono resolveu encarar o desafio de entrar sozinho na velha mansão Petrone.
Afastando-se dos galhos das árvores descuidadas, empurrou o velho portão rangente, foi caminhando lentamente quintal adentro rumo à porta principal. No caminho havia uma piscina gigantesca estilo olímpica, só que cheia de matos e sujeiras de tudo quanto é tipo, a água fedia insuportavelmente a ponto de ter que tapar o nariz.
Logo na entrada principal tinha uma pequena escada, cinco degraus para ser exato, um corrimão de madeira que era um paraíso para os cupins.
A porta estava entreaberta e a maçaneta era de ouro puro, tentou arrancá-la e colocar no bolso, mas não conseguiu. Caminhou casa adentro.
O que mais o impressionou foi o fato de que dentro da casa era totalmente diferente de fora, tudo estava limpo e na mais perfeita arrumação. Havia uma escada enorme como nos grandes palácios europeus, o lustre da sala principal era todo de diamantes que brilhavam tanto que chegava a ofuscar os olhos, uma sala de jantar com uma mesa com doze cadeiras pesadíssimas, aliás, toda a decoração baseava-se em móveis antigos, tabaco fosco estilo à antiga burguesia.
O aspirante a explorador virou-se, com a intenção de ir embora pensando que a qualquer momento o morador daquela casa iria aparecer botando-o para fora a pontapés, quando de repente a porta se fechou sozinha e um forte vento o empurrou para dentro fazendo-o cair sobre o sofá vermelho sangue. Neste momento Bob já estava todo encolhido sob a mesa de centro.
Uma voz baixa no alto da escada aumentava gradativamente à medida que ia aproximando-se da parte térrea.
- Não tenha medo. - repetia insistentemente a voz. - Por favor, não tenha medo de mim.
Curioso, resolveu levantar os olhos por cima do encosto do sofá para saber a quem pertencia aquela doce voz feminina.
Ficou totalmente enfeitiçado pela beleza daquela jovem moça que embora fosse dona de uma beleza como nunca vira antes, o parecia tão infeliz e tão sozinha... Sentiu um nó na garganta ao perceber a tristeza em seus olhos.
Ela aproximou-se um pouco mais e sentou-se ao seu lado no sofá, ele tirou a toca e deu uma ajeitada nos cabelos. Começaram a conversar.
À medida que a conversa se estendia, João ficava cada vez mais entusiasmado com a moça que agora ele sabia o nome, um nome que nunca ouvira antes: Flor-do-Campo.
Flor-do-Campo tinha um olhar diferente que provocava certo transe no rapaz, ele mal conseguia piscar em sua presença.
Certa altura da conversa, a moça o convidou para almoçar, eles comeriam um prato nunca provado por ele antes.
Sentaram-se aquela extensa mesa de jantar, Flor-do-Campo bateu palmas e foram servidos por dois criados totalmente esquisitos que encaravam o rapaz e lançavam olhares e pequenos risos à senhoria que disfarçava questionando se o jovem estava gostando da comida.
Após limpar o prato, curioso, perguntou o que eles haviam comido, ela soltou um risinho sarcástico e respondeu que eles haviam almoçado "cão à moda do chefe".
Um tremor invadiu todo o seu corpo, apressadamente chamou por Bob, mas o cão não atendia. Questionou qual cão eles haviam comido e onde estava o seu amigo.
Ela continuou com o riso sarcástico, mirou-o fixamente e perguntou se ele não reconhecia os latidos de seu próprio cão em sua barriga. No mesmo instante ele cuspiu, empurrou a cadeira e correu para a porta, mas a porta não abria.
Nervoso, pediu que ela abrisse a porta para que pudesse sair, no entanto ela perguntou se não haviam o ensinado a nunca invadir propriedade alheia, continuou dizendo que a partir do momento em que ele adentrou o seu quintal, havia se tornado propriedade sua e que jamais poderia sair dali já que ele seria servido no jantar daquela noite.
Para a infelicidade de João, a bela jovem era na verdade uma espécie de ser que a centenas de anos ganhava forças e rejuvenescia através do consumo de carne humana, advindo de um pequeno planeta até então desconhecido pelos humanos. Nos dia-a-dia, alimentava-se apenas de pequenos animais que entravam em sua propriedade, só que pelo menos uma vez a cada seis meses precisava devorar um humano para não morrer, não tinha preferência por homem ou mulher, contanto que fossem adultos, mas percebeu logo que chegou em nosso corpo celeste que era mais fácil atrair os homens do que as mulheres. E foi assim desde então que ela vem atuando silenciosamente.
Os dois criados o pegaram, o amarraram, o amordaçaram e prepararam um grande caldeirão com temperos dos mais variados tipos... O jogaram dentro.
Naquela noite João foi servido como prato principal num grande banquete no velho casarão abandonado.
Conta-se por aí que a curiosidade matou um gato, neste caso, matou um jovem e o seu fiel cão.
Complicada e imperfeita - Mini Conto
Lua De Mel
I
O mais novo casal da família Rodrigues chegou finalmente à suíte do hotel de luxo no Caribe que custou dois meses de economias. Ele arfava de cansaço, mas disfarçava com um sorriso, não foi fácil trazê-la da limusine até a cobertura nos braços.
"Creio que ainda dê para ver o pôr-do-sol, querida" disse, deixando-a no sofá. Ela logo correu até a janela para ver ao vivo o espetáculo desenhado no cartão-postal.
O vestido branco era a roupa mais bonita que já vestira na vida, mas seus ombros já doíam de tanto tempo com aquele peso todo, o maxilar adormecido de tanto sorrir para os convidados, como se tivesse que provar que estava feliz. Como se alguém se importasse com alguma coisa que não fosse os docinhos e um pedaço bem suculento de bolo.
"Infelizmente já anoiteceu..." ela avisou, seu marido estava no banheiro, provavelmente desabotoando aquelas mangas que lhe vinham alfinetando os pulsos pelo dia todo. "Mas o luar visto daqui é esplêndido..."
"Aproveite bem essa noite. Afinal, quando é que teremos outra assim?"
Ela sorriu, tirou aquela grinalda e véu da cabeça, o tecido fino já estava deixando sua pele avermelhada, mas para despir o vestido demoraria mais, não gostaria de rasgar nem uma fibra sequer, queria guardar muito bem qualquer lembrança do dia mais feliz de sua vida.
As estrelas, aos poucos, começavam a pipocar no céu cada vez mais negro. Uma fresta do mar se tornou branca refletindo o brilho cálido da lua cheia.
Ela suspirou. O dia já estava acabando. Não queria acordar amanhã e ver que isso tudo já era passado.
"Quer ouvir uma história engraçada que eu soube hoje?" ele perguntou pondo a cabeça para fora do banheiro, as mangas do paletó já estavam na altura dos cotovelos.
"O quê?"
"Parece que a cidade que escolhemos para passar a lua de mel está apavorada graças a um maníaco..."
"Pelo amor de Deus, querido, o que isso tem de engraçado?"
"Ao que parece, o tal assassino invade os hotéis, rouba os hóspedes e depois os mata...".
No começo ela sentiu um súbito susto, mas logo viu que os detalhes que ele estava contando eram convenientes demais e conhecia o tom de voz do marido quando ele só estava brincando. Respirou aliviada.
"Nessa você quase me pegou!" disse sorrindo. "Quase me assustei..."
Os dois voltaram a ficar em silêncio, ela virou-se outra vez para a praia quase deserta e o espetáculo que era o luar no Caribe.
Ouviu alguns ruídos no banheiro, depois alguma coisa caiu no chão e se espatifou em milhões de pedacinhos.
"Você está bem, querido?"
"Não se preocupe, foi o espelho que quebrou. Esses hoteizinhos vagabundos..."
Ele não perde a mania de falar mal de tudo, ela pensou.
"Sete anos de azar começando a contar na lua de mel" comentou. "Isso não é nada bom, sabia?"
Seu marido saiu do banheiro finalmente, as mangas ainda arregaçadas e a mão esquerda nas costas.
"Você acredita em superstições?"
"Prevenir não custa nada, não acha?"
Ele se aproximava com aquele sorriso que a havia conquistado há três meses. Agora ela conseguiu calar a boca de todos que diziam que esse casamento estava sendo rápido demais para que pudessem ser felizes. Sentia-se muito feliz.
"O que você está escondendo aí atrás, hein?"
"Uma surpresinha para a minha querida esposa..."
"Hum, adoro surpresas...".
Ele agora estava frente a frente com ela, com a mão direita que estava livre ajeitou o seu cabelo para que pudesse ver melhor o rosto da esposa. Fitaram-se profundamente.
"Não precisa se preocupar com o azar" ele disse. De repente ela sentiu uma pontada forte nas costas, uma coisa gelada que a invadiu e dilacerou sua pele; ainda teve tempo de se curvar e ver que o que ele tinha atrás de si era um caco pontudo de vidro, o caco que ele enfiou nela e que agora estava sujo de seu sangue. "Não precisa se preocupar, pois seremos felizes para sempre..."
Ela estava confusa, milhares de perguntas vinham à mente, completamente desnorteada, perdia o controle das pernas, sentia as forças esgotarem-se, seus olhos devagar foram se fechando, até que por fim, como num daqueles filmes da década de trinta, caiu docemente nos braços do marido.
"Seremos muito felizes..."
II
Ela não sabia direito quanto tempo passara inconsciente, mas agora que seus olhos se abriam devagar trazendo as imagens distorcidas e foscas do quarto bem-decorado, vinham também as lembranças do que havia acontecido.
A primeira coisa que conseguiu distinguir foi a figura do marido sentado numa cadeira ao lado dela passando um pano molhado na lâmina de uma faca de carne. Olhou então para si própria e viu que estava caída no chão, deitada e amarrada com uma corda que parecia ser um imenso fio de telefone. Já era difícil de se mexer graças ao vestido que agora estava insuportavelmente apertado. Ademais, aquela corda não a dava chances de escapar.
"Querido, que brincadeira é essa?"
"Ah, acordou, amor" ele deu uma olhadela para ela, depois voltou a polir seu reflexo na faca. "Não vejo brincadeira nenhuma."
"Por que você está fazendo isso?"
Ele se levantou e foi até as costas dela, a esposa quis se revirar, quis tirá-lo dali, mas não conseguia mover um músculo.
Ele analisou o ferimento feito nas costas dela.
"Hum... não pegou em nenhum órgão vital, vou ter que terminar o serviço..."
"Querido, por favor, pare com isso. Está me assustando...".
"Quer saber de uma coisa muito interessante?" ele perguntou. "Na verdade, você já deveria estar sabendo, mas duvido que tenha lido o contrato nupcial; ele dizia, numa clausula muito específica, que caso um de nós venha acidentalmente a falecer, o dinheiro da conta bancária do casal não precisa ser dividido entre familiares. Fascinante, não acha?"
"É por dinheiro? Você está fazendo isso por dinheiro?"
Ela queria chorar, mas a raiva não deixava que as lágrimas rolassem.
"E não é tudo nessa vida por causa do dinheiro? O mundo não gira em torno de um bendito papel verde?"
As lágrimas queriam escapar, mas ela não deixaria.
"Você não precisava fazer isso... Você teria tudo enquanto estivesse casado comigo..."
"E ter que te aturar pelo resto da minha vida? Agüentar aquela vaca da sua mãe e aquela sua irmã ridícula dar em cima de mim sempre que você sai de perto? Acho que te matar é uma opção menos tortuosa..."
Ela conhecia agora quem era o homem com o qual se casou, e sua família tinha toda razão em não gostar dele.
"Você não sairá impune, é claro que todos logo desconfiarão..."
"Quer saber de mais uma coisa interessante?" ele parou de limpar a faca, ajeitou o cabelo e sorriu para o reflexo perfeito. "Aquela historinha que eu te contei, sobre o assassino dos hotéis, não era de tudo mentira, ou você acha que uma praia caribenha estaria deserta numa noite estrelada? E a genialidade do plano está justamente aí, eu estudei o tal assassino, e sei como ele age... você será só mais uma vítima do cruel psicopata dos hotéis. Quem desconfiaria do pobre maridinho, viúvo tão cedo, pobrezinho...?"
Ela sabia que, ao contrário dele, a sua aparência devia estar terrível a uma hora dessas, a grossa camada de maquiagem que pusera já não devia agora de um amontoado de manchas borradas ao longo do rosto, e lembrou-se então de todo o trabalho que tivera para se maquiar, das horas arrumando o cabelo e ajeitando o vestido, dos meses tentando ficar mais bonita com exercícios que não foram feitos para o seu biótipo, e tudo por ele, todo esse esforço em troca de um pouquinho do amor dele.
"Você nunca me amou?" a pergunta saiu involuntária, meio humilhante.
"Isso é uma típica pergunta sua" ele respondeu amargamente, passou a andar em volta dela escolhendo o melhor lugar para enfiar a lâmina "uma gorda sentimentalóide tão insegura que precisa arranjar um homem pobre para fingir acreditar que é amada. Simplesmente patética."
Ele se abaixou e segurou o queixo dela, passou a lâmina gelada pelo seu rosto, mas sem cortá-la. Mas não foi pela dor causada pela lâmina que ela causou a chorar naquele instante, e sim pela maior, pela mais intensa, a dor das palavras que ele dissera. E o choro irrompeu trazendo os soluços e os caminhos negros que o lápis de olho úmido criaram no seu rosto.
No começo ele só pode sorrir. Aquilo era o que era não queria: chorar. Havia percebido o esforço que ela vinha fazendo para evitar dar esse gostinho a ele, e fracassara, para o seu grande prazer ela fracassara.
Mas depois de vê-la chorar por um bom tempo ele começou a se entediar com isso, tanto que abaixou-se, tirou o lenço da lapela, e secou-lhe as lágrimas cuidadosamente, para depois dizer:
"Você está tão bonita para morrer hoje... Fez bem em se arrumar tanto..." olhou-a nos olhos, a esposa tentava ainda achar apenas um pouco de piedade naquelas duas esferas brilhantes, procurou pelo homem calmo e amoroso pelo qual se apaixonara, mas não encontrava, não encontrava nem vestígios: aquele homem nunca existiu. "Lembra de quando eu te conheci? O livro que você estava lendo quando trombei em você?"
"E daí?" ela perguntou, agora com o tom de voz raivoso que ele queria que ela tivesse, finalmente havia compreendido que não sairia viva da lua de mel.
"Qual era?"
"Você sabe!"
"Qual era!" ele gritou. Um chute nas costas que desenhou uma pegada no vestido branco, gostara de bater, ansiava por isso há tanto tempo que não resistiu e lhe deferiu um segundo golpe, e um terceiro.
Ela sentia o coração a duzentos por hora, respondeu bem baixinho, amedrontada:
"Cem anos de solidão, Garcia Márquez."
"E aí está a maior das ironias, minha querida", ele se levantou rindo da própria genialidade. "O nome do maníaco dos hotéis é Gabriel Garcia Márquez, não que seja incomum esse nome aqui na América Hispânica, mas não é engraçado?" fez uma pausa para exibir seu verdadeiro sorriso, cheio de um maléfico cinismo. "Claro que seria mais irônico se tivesse sido Crônica de uma morte anunciada, mas nem pra isso, nem para escolher um maldito livro você prestou..."
"Você é louco!"
Ele sorriu. Nem na hora da morte ela deixa de ser sonsa, pensou.
"Todos somos, meu amor, mas somos loucos e loucos..."
Foi a última coisa que ela ouviu. Naquele momento a faca lhe perfurou a carne, interrompendo a sessão de terror psicológico e salpicando o vestido de vermelho enquanto o marido gargalhava da brincadeira.
Levantou-se, enrolou a faca num jornal velho e colocou-a atrás da calça para jogá-la no mar e depois voltar e dizer que encontrou a esposa nesse estado, que se soubesse dessa história de assassino nunca viria passar a lua de mel nesse lugar, que a policia de via proteger mais as pessoas, etc., etc., etc..
Era o plano perfeito.
Saiu da suíte policiando os dois lados do corredor, não havia ninguém. Todos estavam morrendo de medo do serial killer latino-americano.
Apertou o botão do elevador e esperou, não conseguindo refrear o sorriso contente. Estava tudo certo.
A porta do elevador se abriu e a primeira coisa que ele viu foi o cano do revólver 38 mirado na sua cabeça.
"Não estou aqui para brincar" O rosto atrás do revólver esbravejou, em espanhol. "Ponha as mãos na cabeça e volte devagar para o quarto!"
Ele obedeceu, uma faca não podia competir com um revólver. Abriu a porta lentamente e os dois entraram naquela suíte. Não demorou muito para que se ouvisse um disparo, e depois uma longa e insana sessão de risos.
Quem estava ali era Gabriel Garcia Márquez, e não era o escritor.
O mais novo casal da família Rodrigues chegou finalmente à suíte do hotel de luxo no Caribe que custou dois meses de economias. Ele arfava de cansaço, mas disfarçava com um sorriso, não foi fácil trazê-la da limusine até a cobertura nos braços.
"Creio que ainda dê para ver o pôr-do-sol, querida" disse, deixando-a no sofá. Ela logo correu até a janela para ver ao vivo o espetáculo desenhado no cartão-postal.
O vestido branco era a roupa mais bonita que já vestira na vida, mas seus ombros já doíam de tanto tempo com aquele peso todo, o maxilar adormecido de tanto sorrir para os convidados, como se tivesse que provar que estava feliz. Como se alguém se importasse com alguma coisa que não fosse os docinhos e um pedaço bem suculento de bolo.
"Infelizmente já anoiteceu..." ela avisou, seu marido estava no banheiro, provavelmente desabotoando aquelas mangas que lhe vinham alfinetando os pulsos pelo dia todo. "Mas o luar visto daqui é esplêndido..."
"Aproveite bem essa noite. Afinal, quando é que teremos outra assim?"
Ela sorriu, tirou aquela grinalda e véu da cabeça, o tecido fino já estava deixando sua pele avermelhada, mas para despir o vestido demoraria mais, não gostaria de rasgar nem uma fibra sequer, queria guardar muito bem qualquer lembrança do dia mais feliz de sua vida.
As estrelas, aos poucos, começavam a pipocar no céu cada vez mais negro. Uma fresta do mar se tornou branca refletindo o brilho cálido da lua cheia.
Ela suspirou. O dia já estava acabando. Não queria acordar amanhã e ver que isso tudo já era passado.
"Quer ouvir uma história engraçada que eu soube hoje?" ele perguntou pondo a cabeça para fora do banheiro, as mangas do paletó já estavam na altura dos cotovelos.
"O quê?"
"Parece que a cidade que escolhemos para passar a lua de mel está apavorada graças a um maníaco..."
"Pelo amor de Deus, querido, o que isso tem de engraçado?"
"Ao que parece, o tal assassino invade os hotéis, rouba os hóspedes e depois os mata...".
No começo ela sentiu um súbito susto, mas logo viu que os detalhes que ele estava contando eram convenientes demais e conhecia o tom de voz do marido quando ele só estava brincando. Respirou aliviada.
"Nessa você quase me pegou!" disse sorrindo. "Quase me assustei..."
Os dois voltaram a ficar em silêncio, ela virou-se outra vez para a praia quase deserta e o espetáculo que era o luar no Caribe.
Ouviu alguns ruídos no banheiro, depois alguma coisa caiu no chão e se espatifou em milhões de pedacinhos.
"Você está bem, querido?"
"Não se preocupe, foi o espelho que quebrou. Esses hoteizinhos vagabundos..."
Ele não perde a mania de falar mal de tudo, ela pensou.
"Sete anos de azar começando a contar na lua de mel" comentou. "Isso não é nada bom, sabia?"
Seu marido saiu do banheiro finalmente, as mangas ainda arregaçadas e a mão esquerda nas costas.
"Você acredita em superstições?"
"Prevenir não custa nada, não acha?"
Ele se aproximava com aquele sorriso que a havia conquistado há três meses. Agora ela conseguiu calar a boca de todos que diziam que esse casamento estava sendo rápido demais para que pudessem ser felizes. Sentia-se muito feliz.
"O que você está escondendo aí atrás, hein?"
"Uma surpresinha para a minha querida esposa..."
"Hum, adoro surpresas...".
Ele agora estava frente a frente com ela, com a mão direita que estava livre ajeitou o seu cabelo para que pudesse ver melhor o rosto da esposa. Fitaram-se profundamente.
"Não precisa se preocupar com o azar" ele disse. De repente ela sentiu uma pontada forte nas costas, uma coisa gelada que a invadiu e dilacerou sua pele; ainda teve tempo de se curvar e ver que o que ele tinha atrás de si era um caco pontudo de vidro, o caco que ele enfiou nela e que agora estava sujo de seu sangue. "Não precisa se preocupar, pois seremos felizes para sempre..."
Ela estava confusa, milhares de perguntas vinham à mente, completamente desnorteada, perdia o controle das pernas, sentia as forças esgotarem-se, seus olhos devagar foram se fechando, até que por fim, como num daqueles filmes da década de trinta, caiu docemente nos braços do marido.
"Seremos muito felizes..."
II
Ela não sabia direito quanto tempo passara inconsciente, mas agora que seus olhos se abriam devagar trazendo as imagens distorcidas e foscas do quarto bem-decorado, vinham também as lembranças do que havia acontecido.
A primeira coisa que conseguiu distinguir foi a figura do marido sentado numa cadeira ao lado dela passando um pano molhado na lâmina de uma faca de carne. Olhou então para si própria e viu que estava caída no chão, deitada e amarrada com uma corda que parecia ser um imenso fio de telefone. Já era difícil de se mexer graças ao vestido que agora estava insuportavelmente apertado. Ademais, aquela corda não a dava chances de escapar.
"Querido, que brincadeira é essa?"
"Ah, acordou, amor" ele deu uma olhadela para ela, depois voltou a polir seu reflexo na faca. "Não vejo brincadeira nenhuma."
"Por que você está fazendo isso?"
Ele se levantou e foi até as costas dela, a esposa quis se revirar, quis tirá-lo dali, mas não conseguia mover um músculo.
Ele analisou o ferimento feito nas costas dela.
"Hum... não pegou em nenhum órgão vital, vou ter que terminar o serviço..."
"Querido, por favor, pare com isso. Está me assustando...".
"Quer saber de uma coisa muito interessante?" ele perguntou. "Na verdade, você já deveria estar sabendo, mas duvido que tenha lido o contrato nupcial; ele dizia, numa clausula muito específica, que caso um de nós venha acidentalmente a falecer, o dinheiro da conta bancária do casal não precisa ser dividido entre familiares. Fascinante, não acha?"
"É por dinheiro? Você está fazendo isso por dinheiro?"
Ela queria chorar, mas a raiva não deixava que as lágrimas rolassem.
"E não é tudo nessa vida por causa do dinheiro? O mundo não gira em torno de um bendito papel verde?"
As lágrimas queriam escapar, mas ela não deixaria.
"Você não precisava fazer isso... Você teria tudo enquanto estivesse casado comigo..."
"E ter que te aturar pelo resto da minha vida? Agüentar aquela vaca da sua mãe e aquela sua irmã ridícula dar em cima de mim sempre que você sai de perto? Acho que te matar é uma opção menos tortuosa..."
Ela conhecia agora quem era o homem com o qual se casou, e sua família tinha toda razão em não gostar dele.
"Você não sairá impune, é claro que todos logo desconfiarão..."
"Quer saber de mais uma coisa interessante?" ele parou de limpar a faca, ajeitou o cabelo e sorriu para o reflexo perfeito. "Aquela historinha que eu te contei, sobre o assassino dos hotéis, não era de tudo mentira, ou você acha que uma praia caribenha estaria deserta numa noite estrelada? E a genialidade do plano está justamente aí, eu estudei o tal assassino, e sei como ele age... você será só mais uma vítima do cruel psicopata dos hotéis. Quem desconfiaria do pobre maridinho, viúvo tão cedo, pobrezinho...?"
Ela sabia que, ao contrário dele, a sua aparência devia estar terrível a uma hora dessas, a grossa camada de maquiagem que pusera já não devia agora de um amontoado de manchas borradas ao longo do rosto, e lembrou-se então de todo o trabalho que tivera para se maquiar, das horas arrumando o cabelo e ajeitando o vestido, dos meses tentando ficar mais bonita com exercícios que não foram feitos para o seu biótipo, e tudo por ele, todo esse esforço em troca de um pouquinho do amor dele.
"Você nunca me amou?" a pergunta saiu involuntária, meio humilhante.
"Isso é uma típica pergunta sua" ele respondeu amargamente, passou a andar em volta dela escolhendo o melhor lugar para enfiar a lâmina "uma gorda sentimentalóide tão insegura que precisa arranjar um homem pobre para fingir acreditar que é amada. Simplesmente patética."
Ele se abaixou e segurou o queixo dela, passou a lâmina gelada pelo seu rosto, mas sem cortá-la. Mas não foi pela dor causada pela lâmina que ela causou a chorar naquele instante, e sim pela maior, pela mais intensa, a dor das palavras que ele dissera. E o choro irrompeu trazendo os soluços e os caminhos negros que o lápis de olho úmido criaram no seu rosto.
No começo ele só pode sorrir. Aquilo era o que era não queria: chorar. Havia percebido o esforço que ela vinha fazendo para evitar dar esse gostinho a ele, e fracassara, para o seu grande prazer ela fracassara.
Mas depois de vê-la chorar por um bom tempo ele começou a se entediar com isso, tanto que abaixou-se, tirou o lenço da lapela, e secou-lhe as lágrimas cuidadosamente, para depois dizer:
"Você está tão bonita para morrer hoje... Fez bem em se arrumar tanto..." olhou-a nos olhos, a esposa tentava ainda achar apenas um pouco de piedade naquelas duas esferas brilhantes, procurou pelo homem calmo e amoroso pelo qual se apaixonara, mas não encontrava, não encontrava nem vestígios: aquele homem nunca existiu. "Lembra de quando eu te conheci? O livro que você estava lendo quando trombei em você?"
"E daí?" ela perguntou, agora com o tom de voz raivoso que ele queria que ela tivesse, finalmente havia compreendido que não sairia viva da lua de mel.
"Qual era?"
"Você sabe!"
"Qual era!" ele gritou. Um chute nas costas que desenhou uma pegada no vestido branco, gostara de bater, ansiava por isso há tanto tempo que não resistiu e lhe deferiu um segundo golpe, e um terceiro.
Ela sentia o coração a duzentos por hora, respondeu bem baixinho, amedrontada:
"Cem anos de solidão, Garcia Márquez."
"E aí está a maior das ironias, minha querida", ele se levantou rindo da própria genialidade. "O nome do maníaco dos hotéis é Gabriel Garcia Márquez, não que seja incomum esse nome aqui na América Hispânica, mas não é engraçado?" fez uma pausa para exibir seu verdadeiro sorriso, cheio de um maléfico cinismo. "Claro que seria mais irônico se tivesse sido Crônica de uma morte anunciada, mas nem pra isso, nem para escolher um maldito livro você prestou..."
"Você é louco!"
Ele sorriu. Nem na hora da morte ela deixa de ser sonsa, pensou.
"Todos somos, meu amor, mas somos loucos e loucos..."
Foi a última coisa que ela ouviu. Naquele momento a faca lhe perfurou a carne, interrompendo a sessão de terror psicológico e salpicando o vestido de vermelho enquanto o marido gargalhava da brincadeira.
Levantou-se, enrolou a faca num jornal velho e colocou-a atrás da calça para jogá-la no mar e depois voltar e dizer que encontrou a esposa nesse estado, que se soubesse dessa história de assassino nunca viria passar a lua de mel nesse lugar, que a policia de via proteger mais as pessoas, etc., etc., etc..
Era o plano perfeito.
Saiu da suíte policiando os dois lados do corredor, não havia ninguém. Todos estavam morrendo de medo do serial killer latino-americano.
Apertou o botão do elevador e esperou, não conseguindo refrear o sorriso contente. Estava tudo certo.
A porta do elevador se abriu e a primeira coisa que ele viu foi o cano do revólver 38 mirado na sua cabeça.
"Não estou aqui para brincar" O rosto atrás do revólver esbravejou, em espanhol. "Ponha as mãos na cabeça e volte devagar para o quarto!"
Ele obedeceu, uma faca não podia competir com um revólver. Abriu a porta lentamente e os dois entraram naquela suíte. Não demorou muito para que se ouvisse um disparo, e depois uma longa e insana sessão de risos.
Quem estava ali era Gabriel Garcia Márquez, e não era o escritor.
Plano Diabólico
Heitor Savallas era casado com Sophia Lambrou, uma mulher atraente, e de uma antiga e aristocrática família Grega. Era alta e magnífica, com uma dignidade inata. O casamento dos dois foi uma surpresa geral para a sociedade Grega, por eles terem passado por todas as formalidades em menos de dois meses.
Heitor Savallas era dono de uma frota de navios que fazia fretes por todo o continente, enquanto Sophia era filha única de um ilustre banqueiro.
No começo parecia um casamento perfeito. Heitor era divertido e atencioso. Era um amante excitante e ardente, constantemente surpreendia a esposa com presentes suntuosos e viagens a lugares exóticos. Típico de um autentico cavalheiro.
E já na primeira noite da lua de mel, ele manifestou sua maior vontade:
— Teremos muitos filhos.
Os dias correram e viraram meses, eis que chegou aos ouvidos de Heitor a grande noticia.
No dia que soube da gravidez da esposa, Heitor ficou extasiado e confiante. Abraçou sua amada e profetizou:
— Ele vai assumir meu império!
Mas infelizmente Sophia abortou no terceiro mês... O homem ficou fora de si quando descobriu que sua amada não poderia mais lhe dar filhos, devido a uma grave deformidade em seu útero.
Daquele momento em diante a vida de Sophia tornou-se um inferno. Heitor comportava-se como se a esposa tivesse deliberadamente matado seu filho. Ignorava-a e começou a sair com outras mulheres.
Sophia poderia até suportar isso, mas o que tornava a humilhação tão angustiante era o prazer que o marido sentia em ostentar publicamente suas ligações amorosas. Levava suas amantes para sua ilha particular em seu iate. A imprensa registrava alegremente as aventuras românticas de Heitor Savallas.
O casamento de Heitor e Sophia vinha se desintegrando há anos, mais a gota d’água aconteceu quando ela descobriu que Heitor estava saindo com sua melhor amiga.
—Você consegue transformar qualquer mulher em uma prostituta! – Gritou ela – Tudo que toca, se transforma em lixo! Você é meu marido e eu ainda o amo, mais vou lhe jurar uma coisa: Eu vou acabar com você, você vai pagar por todas as humilhações que me fez passar no decorrer desses anos!
Heitor fitou-a nos olhos e percebeu que dizia a verdade, mesmo assim não se preocupou.
No começo Sophia não fazia a menor ideia de como faria. Sua vida não tinha mais importância, precisava acabar com a dele...
A ideia surgiu em uma noite depois de vê-lo chegar de mais uma de suas noitadas...
Heitor ainda trabalhava em seu escritório quando Sophia entrou. Ela carregava um embrulho com um barbante grosso. Tinha nas mãos um facão de cortar carne.
— Heitor, poderia cortar esse barbante pra mim? Não consigo.
Ele levantou os olhos para ela e disse impaciente.
— Onde já se viu segurar uma faça pela lamina?
Ele pegou a faça e começou a cortar o barbante.
— Não poderia pedir a um dos criados para fazer isso?
Sophia não respondeu.
— Pronto!
Ele largou a faca e Sophia pegou-a pela lamina com todo o cuidado. Voltou para o quarto e depositou a faça dentro de uma embalagem plástica e a guardou no fundo de uma gaveta do criado mudo. Pronto. Agora era só esperar chegar a noite e colocaria seu plano em ação.
Sua majestosa casa localizava-se aos redores de Pireu, tendo ao fundo um imenso lago, rodeado de arvores frondosas e altas. Era ali onde Sophia planejava finalizar seu plano de destruir o marido.
Heitor costumava chegar em casa altas horas da madrugada e ia direto ao seu quarto, a muito tempo deixou de visitar o leito matrimonial, onde a esposa dormia.
Já se aproximava das 22hs, quando Sophia resolveu que tinha chegado a hora. Todos os criados já tinham se recolhido e a casa se encontrava no mais absoluto silencio. Pé ante pé, ela foi até o quarto do marido e escolheu uma camisa que se encontrava na sexta de roupa suja e arrancou um botão, voltou para o quarto e aleatoriamente jogou no tapete do quarto, pegou o relógio de ouro que ganhara do marido e quebrou, jogando sobre o criado mudo, enquanto revirava todo o quarto. Quebrou o abajur,e conseguiu desprender uma das cortinas das presilhas. Pegou cuidadosamente a faça no fundo da gaveta, enrolou na camisa que mais cedo tinha retirado o botão e desceu até o lago.
— Chegou a hora... – Pensou ela quando se aproximou do lago
Pegou a faça pela lamina, enrolou o cabo na camisa e fechando os olhos, respirou fundo e se preparou para o grande ato. Cravou a lamina na parede abdominal na altura do umbigo.
A dor foi intensa... O sangue começou a escorrer manchando a areia. Começou a sentir-se tonta, cambaleou até um pequeno morro, pressionado o sangramento com a camisa.
E dentro do tronco de uma velha arvore caída, ela depositou a faça enrolada a camisa ensanguentada..
Caminhar de volta até o lago foi uma tortura. Caiu de joelhos e pensou:
— Não posso desistir agora! Tenho que conseguir!
Continuou a andar, lutando contra a vertigem que a dominava, por fim, sentiu a água fria do lago em seus pés e sorrio. Agora era só continuar andando.
Quando a água fria bateu no ferimento ela não resistiu e gritou de dor, mas o ódio pelo marido falou mais alto e ela continuou até sentir que finalmente suas forças acabaram...
No dia seguinte Heitor saiu para o escritório como fazia todas as manhãs. Lá pelas 11 horas sua secretaria anunciava que um investigador de policia tinha urgência em vê-lo.
— Mande entrar, essas pessoas estão sempre querendo contribuições que nunca sabemos onde vão parar.
Quando o investigador entrou já foi logo anunciando:
— Sr. Savallas, o senhor esta preso pelo assassinato de sua esposa.
Tudo parecia acontecer em câmera lenta. As provas eram incontestáveis. Tudo no quarto levava a crer que tinha acontecido uma briga, objetos virados, o botão de uma camisa que horas depois foi encontrada enrolada em uma faça com suas digitais, manchas de sangue na areia que levava ao lago e finalmente o corpo boiando nas águas geladas, com o ferimento mortal em seu flanco...
Finalmente Sophia tinha conseguido destruir o intocável Heitor Savallas..
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